Milho norteia avanço da Monsanto

26/03/2008

Milho norteia avanço da Monsanto

 


A conversa com o espanhol Alfonso Alba, presidente da Monsanto do Brasil, não precisa ser longa para que os últimos movimentos da empresa passem a ser compreendidos como o prólogo de uma aguardada nova onda de crescimento deflagrada pela liberação do plantio comercial de milho transgênico no país, ratificada pelo Conselho Nacional de Biossegurança (CNB) em 12 de fevereiro. 

Poucos acreditavam que esse sinal verde não viria, sobretudo após a definitiva liberação da soja geneticamente modificada em campos brasileiros, em 2005, após sete anos de polêmicas, batalhas judiciais com adversários como Greenpeace e Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e contrabando de sementes argentinas. O aval da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) ao algodão resistente a insetos, em 2006, sinalizou que em breve chegaria a vez do milho. 

Líder absoluta no mercado mundial de sementes transgênicas, com vendas líquidas globais de US$ 8,563 bilhões em 2007 (17,4% mais que em 2006), quando lucrou US$ 993 milhões (alta de 44,1%), a Monsanto mantém posições de destaque também no Brasil, onde conta com duas plantas industriais voltadas à produção de herbicidas e 12 unidades de pesquisa, armazenagem e processamento de sementes. E talvez a liderança mais significativa seja justamente nas vendas de sementes convencionais de milho, não transgênicas, no qual com três marcas (Agroceres, Dekalb e Agroeste) é dona de um "market share" de 40%. 

Construída com aquisições - a da Agroeste, anunciada em setembro de 2007 por cerca de US$ 100 milhões, foi a última delas -, é uma fatia muito superior à que a companhia detinha no mercado de sementes convencionais de soja antes da aprovação deste grão transgênico no país. Em 2000, a participação da múlti nesse segmento, via Monsoy, não passava de 5%, ante 70% da estatal Embrapa. Daí porque o potencial na área de sementes de milho é superior. Isso sem contar que o milho está em alta no país em razão da forte demanda externa para a produção de alimentos e biocombustíveis. 

Outra vantagem da Monsanto nas sementes de milho é que os híbridos não são passíveis de multiplicação caseira, ao contrário da soja. Graças a essa característica, a empresa tem problemas até hoje na Argentina, origem das sementes contrabandeadas disseminadas no passado no Brasil. Hoje, disse Alba ao Valor, a cobrança de royalties nas vendas de sementes transgênicas de soja melhorou. Segundo ele, 50% do que a empresa arrecada com esses royalties já resulta das vendas de sementes certificadas, pelas quais recebe R$ 0,30 por quilo. A outra metade vem das compensações (ou indenizações) cobradas pelas sementes salvas e multiplicadas sem permissão. Neste caso, o produtor flagrado na comercialização da colheita tem de pagar 2% do valor do grão. 

Sob menos pressão de seus tradicionais opositores - mas não livre dela, como mostrou recente invasão da Via Campesina em uma de suas instalações no Brasil e o lançamento do livro "O Mundo Segundo a Monsanto", da jornalista francesa Marie-Monique Robin -, a Monsanto viu seu faturamento bruto crescer 21,4% no país em 2007, para R$ 2,7 bilhões. Como no balanço global, os negócios com sementes em geral já puxam o braço brasileiro da múlti, superando os defensivos. As pesquisas por aqui, que absorvem R$ 30 milhões por ano, também se concentram em sementes. Na área de soja, estão sendo aplicados US$ 28 milhões para sustentar uma nova tecnologia específica para o país que deverá ser lançada em 2012. 

"O Brasil já é a principal frente da Monsanto no mundo depois dos EUA. No futuro, com a influência que terá na África, será ainda mais importante. A meta é crescer de 15% e 20% no país nos próximos anos, e temos planos de investimentos para isso", diz Alba. Hoje, a área de milho e sorgo representa 25% do faturamento brasileiro da Monsanto, mas chegar aos 30%, que é a fatia do milho nos negócios mundiais, é apenas uma questão de - pouco - tempo.