Montana, do PR, produz, colheitadeira de algodão
Na recepção da Montana, fabricante de equipamentos agrícolas com sede em São José dos Pinhais (PR), há um quadro que retrata a colheita manual de algodão. No barracão ao lado, empregados montam a segunda unidade da Cotton Blue, primeira colheitadeira do produto feita no Brasil. Com ela, a empresa planeja reduzir a dependência da soja e fechar a cadeia de produção de máquinas para a cultura de algodão no país.
Nos últimos quatro anos, os resultados ruins da soja assustaram o economista Gilberto Zancopé, filho de agricultor que fundou a Montana em 1996, depois de casar-se com uma paranaense e deixar a profissão de analista de investimento de banco em São Paulo. No início ele fazia pulverizadores para serem acoplados a tratores e depois passou a produzir equipamentos que eram arrastados por esses veículos. A grande cartada foi dada em 2001, com a montagem da Parruda, pulverizadora de grãos com motor próprio, para ser usada em várias culturas.
Com a Parruda, o faturamento da Montana saltou de R$ 10 milhões em 2001 para cerca de R$ 200 milhões em 2004. Mas a primeira prova de fogo veio logo depois, com estiagem e preços ruins dos grãos. "Quase fechamos", lembra o empresário. Em 2005, as receitas caíram para R$ 83 milhões e, em 2006, foram de R$ 60 milhões.
Em 2007, a curva inverteu-se, e a Montana fechou com faturamento de R$ 98 milhões. Para este ano, Zancopé quer o dobro. "As encomendas estão fechadas até junho e crescemos 100% na comparação com o primeiro semestre de 2007", conta.
Com a colheitadeira de algodão, que exigiu R$ 10 milhões em investimentos em projeto e implantação da linha de produção, Zancopé quer sair da crise melhor do que entrou. Ele diz que começou a pensar nessa máquina em 2003, quando o Brasil entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os subsídios americanos aos produtores de algodão. Sem os subsídios, a produção americana poderia cair e, a brasileira, aumentar. Dois anos depois a idéia começou a ser desenvolvida, com a análise de patentes.
"Encontramos 180 patentes de proteção depositadas pelos concorrentes", diz. "Tivemos de desviar de todas elas." A unidade de colheita, que fica na parte frontal, foi a mais difícil, e a Montana teve de buscar a tecnologia em Israel, da BHC, que é fornecedora da Case nos EUA. A planta da Montana para a fabricação das colheitadeiras é a terceira no mundo. As duas grandes fabricantes ficam nos EUA - uma é da Case e outra da John Deere. As máquinas custam cerca de US$ 300 mil e, como são importadas, os produtores não têm acesso a financiamento do Moderfrota, do BNDES. Já a Cotton Blue, com nacionalização de 72% - o que permite uso do Moderfrota -, custará cerca de US$ 280 mil.
De acordo com Zancopé, no Brasil comercializa-se em média 150 colheitadeiras novas de algodão por ano. A Montana deverá fazer 20 unidades em 2008 e 50 em 2009. A empresa também quer exportar. "Podemos vender para países onde os EUA têm dificuldades para entrar, como Afeganistão, Paquistão e Uzbequistão", conta. O empresário estuda ainda acordo para produzir com a marca turca Uzel, que já faz pequena colhedora de algodão arrastada por trator. A Montana faz também, desde 2006, tratores para a italiana Landini.
A primeira unidade da Coton Blue ficou pronta no ano passado e foi testada em fazendas do Mato Grosso. Os produtores sugeriram 18 alterações, que foram executadas. "O teste aqui foi satisfatório", diz Volnei Masutti, do grupo Masutti, de Campos de Júlio (MT). "Temos máquinas fabricadas nos EUA e agora teremos uma nova opção."