Salgadeiras clandestinas são um risco para disseminar doenças
Intermediárias entre o abatedouro e o curtume, as salgadeiras estão, desde o mês passado, na mira da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), que está realizando um recadastramento desses estabelecimentos.
O objetivo maior é verificar a situação hoje no Estado, já que a última coleta de informações foi feita em 2000, quando havia cerca de três mil salgadeiras registradas na Bahia.
De 2000 para cá, a Adab se concentrou em ações de combate à febre aftosa – o que fez o Estado ganhar o status de zona livre, em 2001, com vacinação – e as salgadeiras ficaram em segundo plano. Muitas pessoas aproveitaram a falta de fiscalização para abrir uma salgadeira clandestina para fazer a salga do couro de animais abatidos também de forma ilegal, levando sérios riscos de acontecer uma propagação da aftosa no Estado.
Para haver a contaminação, basta apenas que o dono da salgadeira não exija o comprovante de que o animal foi vacinado. O Estado quer manter o status de “zona livre” identificando, até o final do ano, onde está sendo feita a salga da pele do animal, de que maneira e se os resíduos resultantes da salga estão tendo destino adequado.
VISTORIA – A primeira etapa das atividades de recadastramento foi iniciada na Região Metropolitana de Salvador (RMS), no extremo sul da Bahia (área de maior concentração bovina do Estado) e, atualmente, está na região de Paulo Afonso, no norte. Cerca de 30 municípios já foram visitados e, em muitos deles, as salgadeiras, antes abertas, não funcionam mais. Isso porque a maioria das empresas grandes açambarcou o mercado.
“O que estamos vendo nos municípios é que muitas salgadeiras que funcionavam fecharam as portas por causa da demanda, que caiu muito, pelo menos para elas. Hoje, a salga da pele dos animais é feita basicamente por empresas grandes, detentoras do mercado”, diz o coordenador do Programa de Cadastramento de Salgadeiras da Adab, Marcelo Conceição.
Conceição vai checar, até o final do ano, se as salgadeiras que antes tinham registro ainda funcionam.
O coordenador acredita que existam hoje, no Estado, de 1.500 a 2 mil estabelecimentos.
“Há informações de salgadeiras clandestinas. Ainda não conseguimos detectar nenhuma. Muitas delas são pequenas e funcionam na zona urbana, o que não é recomendável. Mas, assim que houver identificação, vamos procurar fechar esses locais”, declarou Conceição.
CUIDADOS – O agrônomo avisa que o proprietário que, por um motivo ou outro, deixou que a sua empresa ficasse irregular, pode procurar o escritório da Adab mais próximo para regularizar a situação, visando à liberação do Certificado de Inspeção Sanitária (CIS). “Ainda há tempo.
O que o Estado não quer é que a salga seja feita de forma irregular”, diz, informando que, além da preocupação com a questão da transmissão do vírus da febre aftosa, há também o cuidado com a destinação dos resíduos provenientes da desidratação da pele do animal.
Em Vitória da Conquista, onde havia três salgadeiras até um ano atrás, apenas uma está funcionando: a Exportadora Aguiar – as outras eram a Nelomar e Coropel, já considerada uma das maiores salgadeiras do Estado.
Por mês, cerca de mil peles de animais (bovinos e caprinos) são salgadas nessa empresa, dentro dos padrões legais. O líquido resultante da salga é armazenado em um tanque de 30 mil litros e esvaziado a cada cinco anos por um carro-pipa.
De acordo com o gerente da empresa, Antônio Ferreira, as peles são adquiridas por R$ 1,40 e, depois de salgadas, vendidas por R$ 2. “O problema é que a pauta do Estado para o couro é de R$ 2,30 no valor de compra. Aí eu pago o imposto como se tivesse comprado por este valor”, diz.
A cada mil peles compradas, Ferreira afirma que paga R$ 442 de Imposto Comercial sobre Mercadorias e Serviços (ICMS).
“O Estado deveria baixar a pauta”, opina o gerente.
As peles compradas pela empresa são oriundas de várias cidades da região sudoeste e 90% delas, vendidas para outros Estados, como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás e Pernambuco – onde há pólos calçadistas.
“Quando vendo, ainda tenho de pagar mais R$ 240 de ICMS. O problema de quem salga pele é esse”, concluiu Ferreira.