Guaraná: bons negócios no baixo sul
Ele está presente nos supermercados sob várias formas, a mais conhecida é o refrigerante; mas também nas indústrias farmacêuticas e de beleza e até mesmo nas academias de ginásticas, como energético. É o famoso guaraná, que, mesmo sendo natural da Amazônia, é cultivado intensamente no baixo sul do Estado, tornando a Bahia a segunda maior produtora do País, atrás apenas do Amazonas.
Representando a maior área de cultivo do Estado, o guaraná, no município de Ituberá, concentra um verdadeiro pólo de beneficiamento, aproveitando toda a riqueza da amêndoa: pó, extratos, xaropes, cápsulas e refrescos. Durante a safra, que vai de janeiro a março, a empresa Guaran’apis colheu mais de 30 toneladas de guaraná, um marco na história da fábrica, que possui fazendas em Ituberá, município da região do baixo sul do Estado.
Segundo a Secretaria de Agricultura Familiar (Seaf), órgão da Secretaria de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri), estima-se que existam aproximadamente quatro mil hectares cultivados com guaranazeiros. Também por estimativa, acredita-se que a Bahia produza algo em torno de 1.200 a 1.500 toneladas de amêndoas de guaraná.
Com base nos dados estimados, a produtividade dos guaranazeiros baianos gira em torno dos 300 kg por hectare. Esse número, que já foi substancialmente maior (cerca de 600 kg/ha), sofreu redução drástica em função do longo período de abandono a que ficou submetida a cultura. O baixo sul é a principal região produtora, respondendo por cerca de 80% do total produzido pelo Estado, cabendo às regiões de Una e Vale do Jequiriçá, no Recôncavo, os 20% restantes.
Entre 1999 e 2004, o preço pago ao produtor por um quilo de guaraná não passava de R$ 1,50, o que nem sequer cobria os custos de produção, estimados em aproximadamente R$ 6 na Bahia. Essa condição dos preços pagos ao produtor, decorrente de excesso de oferta, acarretou o abandono da cultura e a conseqüente diminuição das quantidades oferecidas ao mercado. Assim, com a diminuição da disponibilidade de guaraná, os preços voltaram a aquecer desde 2005, quando atingiram o patamar de R$ 6 até chegar aos R$ 22, no auge da entressafra em 2007. O atual preço pago ao produtor oscila entre R$ 15 e R$ 17 por quilo, dependendo da qualidade dos grãos.
SEMENTE - A ampliação do uso comercial da semente do guaraná, incorporada pelas indústrias, animou os agricultores do baixo sul baiano e, em menos de dez anos, com plantios mais novos e produtivos, o Estado se transformou num dos maiores produtores do País. Segundo o produtor e empresário Luciano Orrico, da Guaran’apis, uma das maiores empresas da Bahia e do País que há décadas atua na produção de extrato de guaraná e derivados, o que favorece a produção do guaraná no Estado são as semelhanças edafoclimáticas (solo e clima) entre a região do baixo sul do Estado e a região amazônica, que é berço do guaraná.
Além dessas semelhanças, a Bahia tem a seu favor a ausência dos inimigos naturais do guaranazeiro, muito comuns na região nativa da planta, a exemplo do inseto sugador Tripes e das doenças fúngicas conhecidas como antracnose, causada pelo fungo Colletotricum guaranicolla e as doenças do complexo superbrotamento, causada pelo fungo Fusarium decemcellular. “A produtividade dos plantios da Bahia é superior à da Amazônia, visto que a região baiana possui solos de maior fertilidade”, explica o pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, em Manaus, Firmino José do Nascimento Filho, especialista em Genética e Melhoramento da Cultura do Guaranazeiro.
PESQUISAS - A Embrapa Amazônia Ocidental vem trabalhando com o programa de melhoramento genético do guaraná produzindo cultivares clonais que podem contribuir para o desenvolvimento e qualidade da cultura, conta o pesquisador Firmino Filho.
Em abril passado, o pesquisador visitou as fazendas da Guaran’apis, em Ituberá, já que a Embrapa Amazônia é a responsável direta pela execução dos ensaios nas fazendas da Guaran’apis. O projeto tem duração prevista para três anos e começou ano passado prosseguindo até 2010.
A execução do projeto permitirá o melhor desenvolvimento da cultura do guaraná no Amazonas, Bahia e no Brasil como um todo por meio da adoção das tecnologias geradas e transferidas aos produtores rurais, principalmente os de base familiar. A idéia é que, em três anos, aumente o número de cultivares clonais recomendadas, de serem altamente produtivas e resistentes geneticamente às principais doenças da cultura e disponibilizadas aos produtores.
INDUSTRIALIZAÇÃO - Embora só tenha sido oficializada como pessoa jurídica em agosto de 1986, a Guaran’apis iniciou suas atividades plantando guaraná nas suas fazendas desde 1982. Ao todo, foram plantados 72 hectares, sendo que 50 já atingiram a fase adulta e 22 estão em fase de desenvolvimento", diz Luciano Orrico. A Guaran’apis, desde o início, teve como objetivo a industrialização do guaraná. Até então, as únicas formas conhecidas de consumir o guaraná eram nas formas de pó, cápsulas e refrigerantes. A Guaran’apis, porém, inovou ao criar o Arrebite, um extrato concentrado de guaraná, que tem como conceito oferecer ao consumidor os benefícios da guaranina, um poderoso estimulante natural encontrado no guaraná e comumente confundido com a cafeína.
Arrebite é uma bebida feita com extrato de guaraná adoçado, 100% natural e apresentada em várias versões de tamanho e combinações com outros extratos vegetais.
"Não deve ser confundido com o coquetel de anfetaminas apelidado de "rebite". Arrebite é uma marca registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), também registrada nos Ministérios da Agricultura e Saúde, e de propriedade da Guaran’apis", esclarece o empresário Luciano Orrico. Até hoje, quando se pensa em energéticos em flaconetes no Brasil, automaticamente a primeira idéia que vem a mente é o Arrebite, primeiro energético a ser lançado pela empresa no País.
A Guaran’apis foi a primeira a lançar o extrato de guaraná em flaconetes, adequados para o consumo de público diverso, sobretudo interessado no aumento da disposição, vitalidade e energia. A empresa produz energéticos com ou sem associações com outros extratos vegetais, 100% naturais e acondicionados em pequenas embalagens para facilitar o porte. Foi pioneira em acondicionar extrato em frascos de 10 ml e ainda mantém a liderança de venda neste segmento de mercado. | Continua na pagina 7 BENEFICIAMENTO E INDUSTRIALIZAÇÃO COLHEITA
Retiram-se os frutos maduros (abertos) ou os cachos. Eles ficam num galpão por dois a três dias, para leve fermentação.
Em seguida, são despolpados manualmente ou com máquinas despolpadeiras e secam ao sol ou com auxílio de secador artificial
DESCASCAMENTO - Elimina o casquilho do guaraná torrado, que representa 20% do peso da semente. Essa atividade é realizada em despolpadeira
SELEÇÃO - Consiste no descarte de sementes queimadas durante o processo de torrefação, para que não prejudiquem a coloração do produto
MOAGEM - Operação que torna a semente torrada e descascada (amêndoa) em pó. Esta etapa é realizada por moinho de martelo, com peneiras finas
ENVASAMENTO - Acondicionado sob diversas maneiras, é vendido no mercado em forma de cápsulas ou extratos
COLHEITA
PRODUTOS
EXTRATO - Do extrato são produzidos xaropes, refrigerantes e refrescos
ENERGÉTICO - Destila-se o extrato para retirada do álcool, açúcar e os aditivos que conferem aroma e sabor