Pequeno agricultor é beneficiado
Responsável por 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros, a agricultura familiar também colhe os frutos da disparada nos preços internacionais de grãos. Embalados por um forte aumento do crédito para o setor, os pequenos apostaram em suas lavouras e, agora, estão conseguindo preços um pouco melhores para seus produtos. Mas, para a agricultura familiar, os ganhos com o cenário internacional favorável nem de longe se aproximam aproximam do aumento de renda obtido pelo agronegócio, dizem os especialistas.
Dificuldade de acesso ao mercado comprador, ausência de mecanismos para fazer estoques e aguardar picos de preços, barreiras técnicas e de acesso à terra reduzem os ganhos dos pequenos agricultores. E, quanto menor e menos organizado o agricultor, mais os lucros ficam na outra ponta da cadeia – ou seja, com o atravessador.
A escala de ganhos reproduz a histórica desigualdade brasileira.
No Sul, onde as famílias possuem médias propriedades, formam cooperativas e têm acesso à tecnologia, os ganhos são vistos em carros na garagem; no Nordeste, os pequenos conseguiram feitos mais modestos, como a compra de eletrodomésticos.
Na casa onde vive com a mulher e os três filhos, Paulo Ferreira da Mota, de 43 anos, tem computador, microondas, TV em cores e geladeira. Um padrão antes impensável para um pequeno produtor do semiaacute;rido nordestino.
Ao lado do pai, Jarbas, de 74 anos, Paulo planta feijão no seu sítio Tiririca, de 10 hectares, no município pernambucano de São João: 60% da produção são vendidos, na ponta final, ao Estado do Rio de Janeiro.
Eles já viram a cotação da saca do feijão bater R$ 350 no início do ano, mas, na ocasião, a família não tinha estoque para vender.
Alguns meses antes, na feira de Lajedo (centro comprador) o feijão tinha “bamburrado”, ou sobrado, na gíria nordestina, fazendo a festa dos especuladores, que compraram a saca por até R$ 30.
“Aí entra o grande vilão, que é o atravessador”, explica Antônio Félix da Costa, pesquisador do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA).
Este ano, o preço do feijão, vilão da inflação, subiu 45% (tipo preto) e 18,5% (mulatinho) nos supermercados. Reflexo direto da alta do milho e da soja no mercado internacional. No ano passado, muitos produtores destinaram parte da área antes dedicada ao feijão para o plantio desses grãos, que já estavam em alta.
“Não tem como a alta de um alimento não se estender a outros, mesmo em produtos como feijão, com pouca presença no mercado internacional. As altas de soja e milho também pressionam carne e leite”, explica Gervásio Rezende, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
*A crise dos preços dos alimentos será principal tema da Conferência da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) sobre Segurança Alimentar, Mudanças Climáticas e Bioenergia, que começa terça-feira em Roma. Na abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará uma defesa do etanol e dos biocombustíveis.