Solução poderá custar US$ 30 bilhões

04/06/2008

Solução poderá custar US$ 30 bilhões

 

Resolver a crise mundial de alimentação pode custar US$ 30 bilhões ao ano e as nações mais ricas estão fazendo muito pouco para ajudar os países em desenvolvimento a enfrentar o problema, afirmaram autoridades da ONU.
Em uma reunião de cúpula com a participação de diversos líderes mundiais para discutir a escassez de alimentos, Jacques Diouf, responsável pela Organização para Agricultura e Alimentos da ONU, abriu o encontro criticando duramente os países ricos por cortarem programas de agricultura que beneficiariam as nações mais pobres e por ignorarem o desmatamento - ao passo que gastam bilhões em mercados de carbono, subsídios à produção de biocombustível.
"Os países desenvolvidos na verdade criaram políticas, estratégias e programas que - se tivessem recebido fundos adequados - teriam resolvido o problema mundial de falta de alimentos", afirmou Diouf, acrescentando ainda que a comunidade internacional finalmente começou a mobilizar-se para ajudar depois que imagens de rebeliões contra a fome apareceram na mídia. Ele disse que houve uma série de reuniões para discutir a necessidade de programas para combater a fome e incentivar a agricultura em países pobres na última década, mas não houve dinheiro suficiente para torná-los realidade.
Outro importante debate que veio à tona durante a conferência foi acerca do papel do biocombustível no aumento da escassez de alimentos. A delegação norte-americana defendeu que apenas 2 ou 3% das elevações nos preços de alimentos podem ser atribuídos ao "boom" dos biocombustíveis. A ONU, por outro lado, disse que o impacto foi muito maior. A produção de biocombustíveis afeta os preços dos alimentos porque muitos agricultores ao redor do mundo deixaram de cultivar alimentos para produzir biocombustíveis.
Diouf criticou políticas que subsidiam culturas voltadas para o setor energético, como aquelas empregadas nos Estados Unidos. "Ninguém entende como US$ 11 ou 12 bilhões em subsídios em 2006 e políticas de tarifas protecionistas tiveram o efeito de redirecionar 100 milhões de toneladas de grãos que seriam destinados ao consumo humano para satisfazer a sede por combustíveis para automóveis".
Houve pouca divergência quanto às medidas necessárias para resolver a questão dos crescentes custos dos alimentos e o seu impacto nos países mais pobres: mais ajuda em alimentos para combater a fome mundial, sementes e fertilizantes adicionais para os agricultores mais pobres, menos barreiras e tarifas de exportação que restringem o fluxo comercial e mais pesquisas para aprimorar o rendimento das colheitas. O problema agora é convencer os países mais ricos a pagar por isso, a um custo estimado de US$ 30 bilhões por ano.Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, pediu o apoio financeiro das nações ricas para prover imediatamente mais ajuda em alimentos e para ajudar países pobres a cultivar mais alimentos. Ele apontou que diversos governos e instituições internacionais já têm garantido apoio financeiro extra para lidar com a crise de alimentos.
Além disso, os Estados Unidos e alguns outros países sugeriram que plantações geneticamente modificadas poderiam desempenhar um papel fundamental, ajudando países pobres a produzir mais alimentos - posição à qual opõem-se fortemente alguns países e grupos sem fins lucrativos. Os Estados Unidos lideram a produção de plantações e sementes geneticamente modificadas.
No Circus Maximus, em frente o local onde acontecia o encontro, o ActioAid, um grupo internacional de combate à pobreza, desenrolou uma faixa que dizia: "Parem de lucrar com a fome - direito à comida agora".
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 10)(The New York Times)