Unctad confirma contágio especulativo na agroinflação
Crescem as evidências de que a crise global de alimentos está diretamente vinculada ao fluxo de capital especulativo na área de commodities agrícolas, confirma a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). A entidade encampa a tese do Brasil contra os especuladores e a alta do petróleo, e diminui as críticas sobre os efeitos da produção de etanol.
Para a Unctad, a crise alimentar está ligada às turbulências nos mercados financeiros e no setor imobiliário que explodiram no ano passado nos Estados Unidos. Especuladores em busca de ativos com preços em alta podem ter sentido a tensão nos mercados mundiais de alimentos, e reorientaram seus portfólios para investir em commodities.
Segundo a agência da ONU, além de US$ 170 bilhões investidos por fundos em commodities no primeiro trimestre deste ano, o volume global de negociações com futuros e opções de grãos cresceu 32% em relação ao mesmo período de 2007. Com isso, a alta de preços foi substancialmente engordada pela especulação nos mercados futuros.
Em contrapartida, a Unctad, ao contrário de outras organizações internacionais, não vê clareza no impacto de biocombustíveis (etanol e biodiesel) sobre a segurança alimentar e a alta de preços agrícolas.
Exemplifica que só 1,4% do trigo é usado na produção de biocombustíveis na União Européia e 0,6% globalmente, enquanto a commodity subiu mais de 40%. O preço do arroz subiu até 165% em um ano, e não é usado para biocombustível. A alta do óleo de palma também foi associada ao "boom" do biodiesel, mas só representa 1% dessa produção. Nesse campo, o impacto estaria mais ligado às políticas bilionárias de subsídios nos países ricos.
Além da especulação, a Unctad vê como grande fator na crise o desequilíbrio entre oferta e demanda. Nesse cenário, os altos preços de petróleo tornaram a produção agrícola mais cara, com a explosão de custos de fertilizantes, sementes, defensivos e transporte.