Clima desafia a produção mundial

17/06/2008

Clima desafia a produção mundial

 

Chuva e seca põem à prova colheita de milho, soja, arroz e trigo em países como EUA e Austrália

 

Num ano em que as colheitas globais precisam ser excelentes para reduzir a ameaça de grave falta de alimentos, é cada vez mais evidente que elas serão, na melhor das hipóteses, medianas. Alguns produtores começam a temer um desastre. Nos Estados Unidos, produtores de milho e soja sofrem com muitas chuvas, enquanto os de trigo na Austrália enfrentam a seca.

– O plantio teve um início fraco. O nível de ansiedade está aumentando – conta Bill Nelson, analista de grãos da Wachovia.

Randy Kron, cuja família atua no setor de agricultura no sudoeste de Indiana há 135 anos, deve ter pés de milho que não chegam nem a meio metro de altura no momento. Durante toda a primavera, contudo, parecia que havia uma torneira no céu. A chuva é regular, cruel.

Parte das terras de Kron está muito encharcada para o plantio. Algumas sementes de milho que tentou plantar afundaram, obrigando-o a replantá-las. As que sobreviveram produziram pés que mal chegam a cinco centímetros de altura.

Num momento em que o milho dos Estados Unidos deveria estar florescendo, um em cada 10 pés nem mesmo emergiu do solo, segundo o Departamento da Agricultura. Pelo fato de o milho plantado tardiamente ser mais sensível a danos causados pelo calor no verão, a demora diária praticamente garante uma safra menor na colheita.

– Isso está deixando meus nervos à flor da pele – desabafou Kron numa manhã, em que o céu estava tão escuro quanto a terra sem plantação.

No inverno passado, quando a crise global se tornou evidente, os preços das commodities dobraram ou triplicaram, provocando protestos nos EUA, badernas em duas dúzias de países e o fantasma de grande subnutrição.

À medida que o mundo clama por mais milho, trigo, soja e arroz, os agricultores tentam enfrentar o desafio. Milhões de acres estão voltando a produzir na Europa. Na Ásia, cultivar dois ou três produtos agrícolas em apenas um ano está ficando mais comum.

Produtores americanos estão plantando 324 milhões de acres este ano, que representa alta de 4 milhões de acres em relação a 2007. No entanto, grande parte da melhor terra está encharcada. Indiana e Illinois foram as mais atingidas, apesar de Iowa, Wisconsin e Minnesota terem sido inundadas na semana passada.

Bob Biehl, cuja propriedade está perto de St. Louis, conseguiu plantar apenas 140 dos 650 acres que ele queria destinar ao milho. Alguns agricultores na região não conseguiram tirar, segundo Biehl, o trator da garagem.


As plantações de soja dos EUA estão 16% menores em relação às do ano passado. A produção de arroz está lenta no Arkansas, responsável por quase metade da produção do país.

– Certamente não teremos um produto tão bom quanto esperávamos. Não acho que isso seja uma boa notícia pra ninguém – explica Harvey Howington da Associação de Produtores de Arroz do Arkansas.

Colheitas têm altos e baixos. Mas com a oferta da maioria das commodities chave em seus mais baixos níveis em décadas, há pouco espaço para erro este ano. Os agricultores americanos estão entre os maiores produtores do mundo, oferecendo 60% do milho que cruza fronteiras internacionais em um ano típico, bem como um terço dos grãos de soja, um quarto dos de trigo e um décimo dos de arroz.

– Se tivermos produtos ruins, será um árduo percurso – opina o economista-chefe do Departamento de Agricultura, Joseph Glauber.

Incertezas

Como todo agricultor sabe, problemas podem vir a qualquer momento antes que a colheita esteja concluída. Danny e Karen Smith levantam no meio da noite em sua fazenda de trigo em Milton, Kansas, toda vez que ouvem um trovão.

Em poucas semanas, o trigo que plantaram no outono passado estará maduro. Uma tempestade ruim ou, pior, um tornado poderia destroçá-lo. No ano passado, os Smiths perderam quase todo o seu trigo para uma geada com muita chuva.

Este ano, o clima tem estado perfeito: fresco e úmido.

– Vê como esses grãos estão grandes? Isso vai alimentar muitas pessoas – comenta Smith, parado no meio de um de seus campos dourados.

A colheita de trigo mundial deve aumentar mais de 8% este ano, graças ao melhor clima e mais acres cultivados. Mas até mesmo essa projeção brilhante é temporária. A Austrália deve sair de uma seca que já dura dois anos, mas essa previsão está, de certa forma, duvidosa.

 


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