Sombra da fome

18/08/2008

Sombra da fome

 


Um espectro ronda 26 milhões de pessoas nos países da América Latina e Caribe em decorrência dos altos preços dos alimentos: a ameaça de se juntarem aos que já padecem da insegurança alimentar. É o que atesta o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Será o cenário extremo, se não houver aumento nas safras. No Brasil serão 6,16 milhões de pessoas, um aumento de 28,3% para 31,5% da população nesta penúria.

O volume recorde de crédito agrícola anunciado pelo governo – R$ 65 bilhões, o equivalente ao despendido em sete anos pela China nas Olimpíadas – é dose certa.

Deverá assegurar 150 milhões de toneladas de grãos e reforçar a produção da agricultura familiar, que ficará com R$ 13 bilhões.

Crédito há; falta uma revolução para afastar a ameaça da fome, a que alistará mais de cem milhões de hectares agricultáveis à produção – terras ociosas ou mal aproveitadas por falta de infra-estrutura, excluídas florestas e áreas de proteção.

Na Bahia são exemplos: o oeste, largo cerrado ainda à espera das germinações da engenharia, como a Ferrovia Leste-Oeste e o novo porto de Ilhéus, que se anuncia; os Baixios de Irecê, desde os governos militares aguardando a engenharia que os transformará em enorme extensão irrigada (a última promessa feita pelo ministro da Integração, Geddel Vieira Lima, barganhando a favor da transposição do São Francisco) e o amplo semiaacute;rido, sequeiro ou irrigação de inegável potencial para pecuária de pequeno porte, fruticultura, mandioca e outros cultivos adequados ao clima, como a mamona, que, a exemplo de outros, não se come, mas dá renda.

No sul, passou o tempo de isolar o efeito da semente do mal para lá transportada, o fungo da vassoura-de-bruxa, a fim de que o combalido eldorado possa reerguer-se, desprenderse da monocultura, associando seu bom fruto, o cacau, a frutíferas, palmáceas, seringueiras, essências florestais, aqüicultura etc. Não cabem mais visitas de presidentes e ministros, promessas e dissimulações.

No estudo, o BID avalia: no cenário extremo, o Brasil precisaria despender mais 1,28% do Produto Interno Bruto em proteção social, um estágio a mais de Bolsa Família. Isso só será preciso se houver negligência.

Se as possibilidades para um salto na agricultura, como as da Bahia, forem desdenhadas.