Aumento na receita não garante renda
O aumento na receita da cafeicultura em 2008 não deverá se traduzir em boa rentabilidade aos produtores. Levantamento do Ministério da Agricultura mostra um crescimento de 48% na receita obtida com a produção de café, que saltou de R$ 5,67 bilhões para R$ 8,40 bilhões em virtude dos preços favoráveis e do aumento na produção. No entanto, representantes dos produtores afirmam que o aumento dos custos de produção, principalmente com mão-de-obra, absorveram a alta das cotações.
Segundo estudo realizado pelo Conselho Nacional do Café (CNC) em parceria com a Sociedade Rural Brasileira (SRB), as despesas com salário mínimo subiram 18% em dois anos, de R$ 350 para R$ 415. Os adubos saltaram de R$ 650 a tonelada para R$ 1,2 mil, alta de 84%. Já o preço da saca do café, segundo as associações, subiu 16,6% no período, de R$ 210 para R$ 245. "Não se deve comparar com a produção de 2007 porque a deste ano é maior. Na realidade, a remuneração ao produtor está diminuindo", esclarece Carlos Melles, deputado federal (DEM-MG) e presidente da Cooparaíso. Ele revela que o custo variável (desembolso) da cultura é de R$ 245 por saca.
O técnico da gerência de mercados da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), Marcos Matos, concorda que a comparação não deve ser feita com base em 2007, pois não reflete a realidade. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de 2007 foi de 33,7 milhões de sacas. Para 2008, a expectativa é de que sejam colhidas 45,5 milhões de sacas. "Além disso, até o final do ano a tendência é que os preços continuem baixos por causa da entrada da nova safra. Por isso, ainda existe a preocupação em vender na hora certa", disse."
Com esse cenário, Gil Barabach, analista da Safras & Mercado enxerga apenas uma opção: esperar preços mais remuneradores. "Diminuir os custos é complicado em plena colheita. Para isso, é preciso esperar o ano que vem", disse. Segundo dados da Emater-MG, o custo variável de uma lavoura no sul de Minas Gerais com produtividade de 30 sacas saltou de R$ 195 a saca em julho de 2006 para R$ 279 a saca em julho de 2008 (43%). Enquanto os preços médios subiram de R$ 217 para R$ 249 a saca no mesmo período (14,7%). "Alguns produtores conseguem um custo menor. Mesmo com a alta dos preços, o cenário não é vantajoso".
Melles destaca dois produtos que estão dando prejuízo na agricultura: o algodão e o café. "O setor está perdendo representatividade. O futuro do agronegócio é muito bom, mas as dívidas vão continuar crescendo se não criarmos subsídios do governo. Hoje o setor deve praticamente uma safra".
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 12)(Roberto Tenório)