Brasil, principal destino do bacalhau norueguês
As melhores coisas da gastronomia têm como ícone os lugares de origem. Cerveja, por exemplo, tem que ser belga, apesar de a Holanda e a República Tcheca conquistarem certo destaque. Vinhos, na França, ainda são os melhores para os especialistas. E, para se apreciar um bacalhau autêntico, bem preparado e de se comer rezando, esse lugar é Alesund, na Noruega, conhecida como a capital mundial do peixe que foi até tema escola de samba no Rio de Janeiro.
Composta por cinco ilhas interligadas por pontes e túneis submarítimos com cerca de 80 metros de profundidade, Alesund foi fundada em 1838, tem algumas particularidades. Tem pouco mais de 45 mil habitantes em um país de 4,6 milhões de pessoas e é cercada por montanhas com inúmeros lagos a mais de dois mil metros acima do nível do mar e que podem ser vistos da janela do avião pouco antes de ele aterrissar no pequeno aeroporto de Vigra, uma das ilhas do município. A cidade é uma dos maiores centros de pesca da Noruega e também a origem da maior parte do bacalhau importado pelo Brasil e 85% do bacalhau exportado pelo nórdicos sai de Alesund.
Muito comum em águas profundas e geladas, o bacalhau é curiosamente muito mais apreciado no Brasil e em Portugal do que na terra dos vikings. Não é dos peixes mais baratos na Noruega ( segundo maior exportador global de pescados, atrás apenas da China) e não faz parte do cardápio das principais festas do calendário católico: a Páscoa e o Natal. Aliás, aqui, a carne de vaca, devido à falta de pasto, é muito mais cara do que peixe.
O maior exportador de bacalhau norueguês para o Brasil, por exemplo, é um dos que admitem que a iguaria não apareça com muita freqüência à sua mesa. "Costumo comer bacalhau de quatro a cinco vezes por ano", confessa Arne Rost, presidente da West-Norway Codfish Company, dona da marca Bacalanor e que é responsável pela fabricação do bacalhau da Jangaard, a líder do mercado na Noruega, exportado para o Brasil.
A Bacalanor tem como clientes no Brasil grandes redes varejistas como Pão de Açúcar, Wal-Mart, Carrefour e também atacadistas como o Atacadão, comprado pelo Carrefour e é responsável pela exportação de 12 mil toneladas de bacalhau seco para o Brasil e de outras 12 mil toneladas de bacalhau em filé congelado.
O Brasil - onde o primeiro barco levando bacalhau para o País saiu da Noruega em 1841 - e Portugal - em cujo litoral o peixe foi extinto devido à pesca predatória, de acordo com os noruegueses - são o destino de quase 70% das exportações de bacalhau seco norueguês, em valores. Enquanto Portugal importou 1,186 bilhão de coroas norueguesas (R$ 395,3 milhões) de bacalhau, o Brasil importou o equivalente 1,098 bilhão de coroas norueguesas (R$ 366 milhões), de acordo com dados Federação Norueguesa de Pescados (FHL, na sigla em norueguês) .
A Noruega exportou 86,439 mil toneladas de bacalhau, volume quase 18% maior do que os 73,358 mil toneladas exportadas em 2005. O Brasil ultrapassou Portugal desde o ano passado como o maior importador de bacalhau norueguês. Importou 30,197 mil toneladas em 2007, registrando um aumento anual em torno de 5%, recorda o diretor da FHL, Jorulf Straume. No entanto, o Brasil compra uma quantidade maior de bacalhau do que Portugal e é um mercado crescente no qual a West-Norway quer ampliar seus negócios no País. De acordo com executivo, existe um mercado potencial no Brasil, pois Portugal tem um consumo per capita da peixe de 10 quilos, e cada brasileiro consome por ano apenas 200 gramas.
"Queremos ampliar os negócios envolvendo o bacalhau, como o segmento de pratos prontos", revela Rost, sem dar maiores detalhes, pois a concorrência também estar se movimentando para investir no Brasil. "O consumo de bacalhau no Brasil é crescente e o real forte ajuda a popularizar ainda mais o produto nas classes C e D", afirma.
Enquanto o Brasil importa mais de 30 mil toneladas de bacalhau seco da Noruega, Portugal importa 20 mil toneladas. Isso ocorre pelo fato de Portugal somente importar o bacalhau cod, da espécie gadus morhua, que habita as águas do Atlântico Norte, Mar da Noruega e Mar de Barents, considerado o bacalhau legítimo , de carne mais clara e tenra, e portanto, mais fácil ser fatiado em lascas. O bacalhau cod noruegues exportado para os portugueses também é conhecido como bacalhau do Porto e também é exportado para o Brasil.
Já o Brasil importa da Noruega vários tipos do bacalhau. A maior parte do volume, 60%, é da espécie Pollachios virena, popularmente conhecido como Saithe, menor, de carne mais escura e sabor mais acentuado e que custa um terço do preço do bacalhau legítimo. O preço é bastante diferente e por isso os dois países empatam em termos de valores, lembra Rost.
Enquanto uma caixa com 25 quilos do autêntico bacalhau cod, ou torsk em noruguês, não sai da fábrica de Alesund - onde depois de limpo e tirado a cabeça é salgado e secado em salas de ventilação e separado automaticamente de acordo com o peso - por menos de US$ 270 a caixa, o saithe custa bem menos, US$ 120.
O Saithe é muito usado na massa do bolinho de bacalhau, que não pode faltar na happy hour dos botecos brasileiros mas ainda é desconhecido na Noruega. O legítimo responde por 30% das importações brasileiras, e os 10% restantes são dos tipos Ling (Molva Molva) e Zarbo (Brosmius brosme).
O maior consumo de bacalhau pelo brasileiro se deve, principalmente, pela valorização do real, mas o preço não tem caído proporcionalmente a essa variação cambial. Para Rost, isso é muito bom pois o brasileiro paga mais pelo bacalhau do que os noruegueses pagam pelo filé mignon. Entre 2002 e 2008, a coroa noruguesa ficou 29% mais barata em relação ao real enquanto o preço médio (FOB) do bacalhau legitimo, também conhecido como o do Porto, subiu 3% e o preço do bacalhau Saithe subiu 8%, de acordo com dados da FHL.
Um dos mitos derrubado por Rost e Straume é de que o bacalhau está praticamente extinto. O governo da Noruega e o International Concil for the Exploration of the Sea (ICES) fixaram cotas em torno de 450 mil toneladas para a pesca do bacalhau por país desde a última década. "Isso tem ajudado a evitar a extinção do bacalhau e países como a Rússia tem respeitado essas cotas em função de um acordo feito entre os governos norueguês e russo", conta Straume.
Já ambientalistas discordam e alertam para o fato de a descoberta de novos campos de petróleo em áreas ricas de bacalhau deverão contribuir para a extinção definitiva do bacalhau.
O petróleo, hoje responsável pela riqueza da Noruega e com um peso na economia de responder por quase a metade do Produto Interno Bruto (PIB), tem ajudado o desenvolvimento de pequenas cidades no país e ameaça hoje em dia também o bacalhau.
"Há pescadores que afirmam que somente a fase de estudos (que envolve a prospecção, quando as empresas de petróleo começam a procurar petróleo por meio da emissão de ondas sonoras) tem feito com que vários peixes desapareçam", afirma Jan Thomas Odegard, secretario geral da ONG Amigos da Terra da Noruega.
A economia de Alesund continua, ao longo dos anos, baseada na pesca enquanto cidades vizinhas com população menor, mas cujos pescadores acabaram entrando no segmento na prestação de serviços para as plataformas marítimas de petróleo descoberto na década de 1970 ostentam maior poder aquisitivo quando seus habitantes desembarcam em Alesund com barcos que ostentam sua riqueza e isso cria certa rivalidade peculiar.