Produção de borracha: alternativa para diversificar e agregar renda
No início do século passado, a cultura da seringueira (herveicultura) para a produção de látex foi responsável pela riqueza e desenvolvimento do Norte do País.
O Ciclo da Borracha, como ficou conhecido, atraiu brasileiros e estrangeiros, que se embrenharam na Floresta Amazônica e fizeram fortuna. Um século depois, a cultura é vista como opção na geração de emprego e renda para os agricultores do sul da Bahia e destacada pelo Programa de Aceleração do Desenvolvimento e Diversificação da Região Cacaueira (PAC do Cacau) como um dos pilares da diversificação agrícola regional.
O mercado aquecido, a melhoria nos preços e o clima propício fazem da região área importante na produção de látex. O PAC aproveita este cenário e estabelece como meta o plantio de 100 mil hectares de seringueira, para a produção de borracha, via sistemas agroflorestais, em substituição à eritrina, espécie exótica disseminada na Mata Atlântica, que nada rende ao produtor e até compete em água, luz e nutrientes com o cacau.
No total, são R$ 670 milhões destinados ao financiamento dos produtores que quiserem plantar mudas, multiplicadas na Biofábrica de Cacau, para serem distribuídas, a partir do ano que vem, a R$ 2 a unidade.
MUDAS – O governo do Estado dá sua contrapartida ao PAC promovendo o plantio de três milhões de mudas, no sul e em outras regiões do Estado, até o ano que vem. A iniciativa integra o Programa Mata Verde, da Superintendência da Agricultura Familiar (Suaf), destinado a agricultores com até 20 hectares de terra. As mudas serão distribuídas gratuitamente pela Biofábrica, onde há 1,5 milhão plantadas em viveiros, que estão começando o processo de enxerto, para serem entregues ao produtor a partir de dezembro, segundo o diretor Moacir Smith Lima.
O dirigente destaca que recebe o material geneticamente melhorado da Ceplac e da empresa Michelin. As mudas são plantadas nos jardins clonais e, quando estão brotando, os técnicos retiram borbulhas (partes dos galhos) e as enxertam nas mudas que ficam nos viveiros para, depois, serem distribuídas ao produtor.
Uma semente para germinar leva um mês. Após dois meses, pode ser plantada no campo e mais dois meses para enxertia.
VANTAGENS – Segundo o pesquisador Raimundo Bonadie, dos 100 mil hectares previstos pelo PAC, 80 serão para substituir as eritrinas, no sombreamento de cultivos contínuos de cacau, e 20 mil para o plantio consorciado seringeira/cacaueiro em áreas degradadas. O pesquisador enumera as vantagens da seringueira, a começar pelo reduzido custo de produção, com a compra da muda e o plantio.
Os tratos culturais são os mesmos feitos no cacau. A eritrina tem espinhos e seus galhos quebram com ventos fortes, causando danos ao cacau. O sistema não causa impacto ambiental e no sistema contínuo de cacau ainda pode consorciar seringa e cacau com cultivos de ciclo curto intercalados (feijão, milho, abacaxi, banana, maracujá etc.) que geram renda ao produtor até que as culturas principais comecem a produzir. Além disso, a herveicultura emprega muita mão-de–obra, ajudando a fixar o homem no campo.
A seringueira produz borracha (látex) em dez dos 12 meses do ano e o maior pico é na entressafra do cacau, ajudando o produtor a ter fluxo de caixa. Um mesmo tipo de mosca poliniza o cacaueiro e a seringueira. O sistema radicular da seringueira é mais profundo e a planta troca de folha uma vez por ano, fazendo a reciclagem dos nutrientes também para o cacau.
O pesquisador destaca ainda a boa infra-estrutura que a região dispõe para compra e beneficiamento da borracha, com três usinas subutilizadas, com capacidade para processar 30 mil toneladas (só produz 12 mil/ano).
A planta começa a produzir com sete anos e estabiliza cinco anos depois, produzindo até 4,5 quilos de borracha seca por planta/ ano. No consórcio com o cacau, a produtividade por hectare pode passar de 600 para 2.000 kg de borracha seca/ano.
MERCADO – As projeções indicam um déficit de três milhões de toneladas no mercado mundial até 2020. O Brasil ainda registra um déficit de 64%, importando 190 mil toneladas das 300 mil que consome. Se persistir nessa situação, o déficit do País será de 600 mil toneladas até 2020. O Brasil importa US$ 4 milhões e a borracha custa US$ 3,2 mil a tonelada.
A projeção é que o País gaste US$ 1,8 bilhão, porque a borracha sintética, feita do petróleo, teve um aumento de 48% nos últimos meses, segundo o pesquisador da Ceplac, Adonias de Castro Filho. E a situação tende a se agravar, se não houver uma política interna de expansão da produção da borracha natural, segundo o pesquisador. O País, frisa, tem base tecnológica para expandir a produção, além da vantagem de ter grandes áreas em comparação com a Ásia, grande produtora, mas 85% em regime de agricultura familiar.