Delícias que vêm do Recôncavo
As mulheres de Gandu e Castro Alves, municípios localizados no Recôncavo baiano, estão aproveitando as oportunidades para aumentar a renda familiar.
Doces cristalizados, em compotas, em barra ou em calda, bombons, ovos de chocolate, pães, biscoitos e até licor são desenvolvidos na região. O sonho delas é criar uma fábrica para aumentar a produção.
Inserido numa região cacaueira, Gandu se destaca pelo cultivo e beneficiamento da banana, com espaço para outras fruteiras, como a graviola e o abacaxi. O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) desenvolve projeto de capacitação de famílias através de cursos com aprendizado e treinamento em diversas áreas, visando a comercialização de produtos artesanais caseiros.
Em parceria com o Sindicato dos Produtores Rurais de Gandu, o Senar ministra cinco cursos de promoção social e complementação de renda: derivados do leite; processamento de doces, sequilhos; biscoitos e cocadas, panificação e confeitaria, embutidos e defumados, chegando ao treinamento de cerca de 10 mil pessoas em 14 anos de existência dos programas. “Temos exemplos de pessoas que fizeram curso de doces e passaram a fornecer para supermercados, lanchonetes e hotéis.
Outros montaram uma agroindústria em suas propriedades e passaram a beneficiar produtos que já trabalhavam, como, por exemplo, cacau”, disse o assessor técnico do Senar em Gandu, Renato Dias Souza.
ENCOMENDAS – A donade-casa Luciene Bispo dos Santos, de 38 anos, sem salário fixo, fabrica bombons de chocolate há seis anos para venda sob encomendas para mercados e lanchonetes e de porta em porta.
“Fiz o curso e hoje estou colhendo o resultado. Minha renda mensal chega a R$ 1 mil. Na Páscoa, ganho até R$ 6 mil”.
Em Teolândia, município vizinho a Gandu, a dona-de-casa e voluntária social, Elza Maria Barreto, 63 anos, fabrica licor com álcool de cereais. Uma novidade para ela, que agregou valor à bebida, antes comercializada em pequena escala.
“Faço de todos os sabores e ainda de raízes, como gengibre e pétalas de rosas”, diz Elza Maria, quituteira que produz licor o ano todo. “Faturo R$ 800 por mês”, conta. Em festas juninas e Natal, a renda de dona Elza gira em toro de R$ 5 mil.
Também em Gandu, a donade-casa Luciene Pinheiro de Jesus, 33, aprimorou as tortas e os biscoitos que já fazia em casa.
“Antes usava ingredientes que não eram certos. No curso, aprendi a usar aquele que dá qualidade ao produto. Qualifiquei meus doces e agreguei valor a eles. Sobrevivo hoje de minhas encomendas e crio meus três filhos com esse trabalho, já que garanto uma renda mensal de quase R$ 1 mil”, salientou.
Para o assessor técnico do Senar, Renato Dias, os treinamentos qualificam a mão-de-obra e promovem o empreendedorismo.
“A proposta do projeto, que existe desde 1994, é apoiar o empreendedorismo rural, permitindo ao pequeno agricultor agregar mais renda à sua produção.
Os cursos têm duração entre 28 e 40 horas, uma vez por semana, e cada turma com 15 pessoas.
São gratuitos e ainda oferecemos alojamento para quem mora em outras cidades”.
“DOCEIRO” – Num universo feminino, um homem se destaca na fabricação de doces em compota, em barra e em caldas. O auxiliar técnico Samuel Lino de Souza, 32, fornece seus doces para restaurantes e lanchonetes de Gandu. “Recentemente, vendi 20 caixas de doces em compota e em barras. Um quilo em barra sai por R$ 6, e em compota a R$ 6,50. Uma caixa tem 15 doces variados. Essa produção aumentou minha renda em R$ 1 mil”, conta. Depois que ele participou dos cursos e começou a ter um bom retorno financeiro, pediu para que seus cinco irmãos ajudassem a aperfeiçoar a produção da família.
TRADIÇÃO – Em Castro Alves (a 190 km de Salvador), muitas famílias aproveitaram as tradicionais receitas familiares e abriram o caminho para uma atividade que ganhou fama na cidade e região e até fora do Estado.
Fabricar doces cristalizados em Castro Alves é uma terapia, e mostra também quanto a indústria caseira pode agregar valor aos frutos regionais.
As doceiras passam o tempo literalmente na cozinha, se ocupando da fabricação de doces cristalizados. Na alta estação, a produção é maior, já que o tempo de secagem das frutas é menor.
Muitas famílias até cultivam pequenos pomares com fruteiras como figo, laranja, jenipapo, jaca, banana, araçá e outras frutas da época. Mas, para garantir a pequena produção, algumas frutas são deixadas em calda e congeladas. É uma forma de conservar as de estação para consumi-las o ano inteiro na fabricação dos doces.
TERAPIA – Floripes Rebouças da Silva, a Dona Flor, simpática doceira de 83 anos, diz que fabrica doces cristalizados como uma terapia. Mas em razão dos elogios recebidos, resolveu comercializar.
“Para passar o tempo.
Não tenho outra coisa a fazer, então me dedico aos doces.
Meus cinco filhos estão criados e moram em Salvador. Mas só faço por encomenda, pois é uma mão-de-obra. Tenho freguesia certa e no final de ano é quando mais vendo”, conta.
Dona Flor começou a fazer doces cristalizados há 50 anos junto com a irmã, Perolina, a “Linda”, que faleceu há três anos, deixando para Dona Flor a tarefa de continuar a produção caseira. Hoje ela conta com a ajuda da auxiliar Dalva, mas não sabe precisar a quantidade de sua produção.
“Vou fazendo e vendendo.
Uma caixa de meio quilo custa R$ 17,50; a de um quilo, R$ 35; e a de dois quilos, R$ 70.Meus filhos se encarregam de entregar as encomendas em Salvador e enviar para outros Estados. É difícil calcular a quantidade”, diz.
Dona Flor tem freguês até no Maranhão, e seus doces são conhecidos em outros países.
FRUTAS – Outro exemplo prático do retorno financeiro alcançado com o beneficiamento dos produtos regionais em casa é o da professora aposentada Marilene Sampaio Nascimento, 68 anos, e a prima Rita Lopes Nascimento, 60. Elas moram juntas com a matriarca da família, Helena Sampaio, 90 anos. Foi ela quem passou a receita dos doces cristalizados para as duas que hoje dividem o tempo entre os cuidados com a casa, os bordados e os doces.
Utilizando frutas da região, compradas nas feiras livres e supermercados, Marilene e Rita fazem doces cristalizados de banana, caju, goiaba, araçá, tamarindo, laranja, carambola, jenipapo, groselha e figo. Elas também não sabem a quantidade dos doces que produzem. “Não temos base. A gente produz de acordo com as encomendas, conforme a necessidade. Às vezes usamos 60 figos, 69 cajus, um quilo de laranja, de 30 a 500 jenipapos. Mas não contamos. A época que mais vendemos é no Natal”, ressalta Marilene.
No inverno, a produção cai, pois as frutas precisam ser desidratadas ao sol. “Nessa época, como agora, a gente aproveita um dia de sol que faça para colocar as frutas nas peneiras para secar. Mas toda hora é um correcorre, tira do quintal que vem a chuva”, conta Rita.