Posseiros temem perda de terra para os índios

04/09/2008

Posseiros temem perda de terra para os índios

Miriam Hermes , sucursal Barreiras

Trinta famílias de posseiros que há 62 anos moram nos domínios da Fazenda Pecuária, também conhecida como Posto Agropecuário de Barreiras, a cerca de 14 km da cidade, estão com medo de perder suas lavouras, depois que foram notificadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) para desocupar a área.No local, o órgão quer assentar índios dissidentes da tribo Kiriris, de Ibotirama.

A notificação informa que o Posto Agropecuário é propriedade da União Federal por força de escritura pública de doação de uma gleba de 126 hectares, ocorrida em outubro de 1949, para que ali funcionasse uma escola agrícola.

No entanto, o posto, que se destinaria a formar técnicos agropecuários, nunca chegou a funcionar, conforme afirma uma das moradoras do local, Maria de Lurdes Monteiro, 62 anos. “Eu nasci e me criei aqui. Vi eles construirem o prédio e trazer as mobílias, mas depois de um tempo levaram tudo embora, sem ter um dia de aula”, diz, acrescentando que não tem vontade nenhuma de sair do seu lugar natal.

“É uma injustiça querer tirar a gente daqui, depois de tanto tempo vivendo em paz e tranqüilidade”, diz Maria Rodrigues dos Santos, 78 anos, viúva de Geraldo Lima dos Santos, primeiro posseiro do lugar, que trabalhava com a família da Antônio Balbino de Carvalho (pai do ex-governador da Bahia) e que no ano de 1946 “cedeu” o lugar para a família morar.

“Meu filho e outros posseiros já estão na Justiça para não deixar que isso aconteça”, afirma ela, destacando que todos têm documentos da área e não vão sair com facilidade. Em 1999, quatro anos antes de morrer, Geraldo dos Santos dividiu sua posse em 13 lotes, beneficiando filhos e demais parentes.

“Nós fizemos denúncia no Ministério Público e na Justiça Federal de Barreiras contra esta arbitrariedade que estão querendo fazer”, destaca Alisson Morandini, 23 anos, que no ano passado adquiriu o direito de posse de um dos lotes dos descendentes de Geraldo.

Outro posseiro, Cílio Pereira, 74 anos, ressalta que se pelo menos eles tivessem uma indenização dava para começar em outro lugar. “Mas disseram que não vamos ter direito a nada. Desse jeito, para onde é que nós vamos e como é que vamos viver?”, pergunta revoltado.

De acordo com a assessoria de comunicação da Funai, o órgão foi procurado por um grupo de índios que estão com dificuldades de entrosamento na sua aldeia e esta terra foi localizada como patrimônio da União. Depois da cientificação dos posseiros para abandonar o local, o próximo passo da Fundação Nacional do Índio é requisitar a reintegração da posse.