Miscigenadas, as espécies resistem ao semi-árido baiano

08/09/2008

Miscigenadas, as espécies resistem ao semi-árido baiano

 

As raças chamadas nativas são grupos descendentes de animais introduzidos pelos portugueses. Têm-se notícias desses animais de caprinos no Nordeste desde 1536, fato que indica que os primeiros colonizadores já traziam animais para o Brasil. Quem conta é o veterinário Pedro da Silva, e, segundo ele, várias raças são procedentes da Europa e África.

Silva diz que “esses animais foram soltos aqui e se miscigenaram. Houve grande mistura e formaram o que hoje nós chamamos de nativas ou ecotipos nativos. Os que existem atualmente nos Estados da Bahia, Pernambuco, Ceará e Piauí, com grandes núcleos, costuma-se dizer que não têm padrão definido, diferentemente das raças normais, que têm padrão de conformidade quanto a tamanho, peso, produção de leite ou carne, que são designadas”, esclarece.

As raças nativas perderam esse padrão e se misturaram, criando os ecotipos.

Saíram daí animais com caracteres de resistência, principalmente de rusticidade, que aprenderam a conviver com animais que sobreviveram aos maiores testes, como seca e fome.

ECOTIPOS – À medida em que iam resistindo, as raças se adaptaram ao semiárido nordestino. Os nativos existentes são os ecotipos Moxotó, Canindé e Repartida entre os caprinos. Entre os ovinos, o Morada Nova e o Rabo Largo, este último considerado o mais rústico dos animais nativos.

O início dos trabalhos desenvolvidos pela EBDA com esses animais, na estação experimental de Pilar (região de Jagurari), deu-se, principalmente, segundo os pesquisadores, para uma preservação, já que “depois da introdução de raças exóticas e cruzamentos, esses ecotipos correm riscos de serem extintos”. Para impedir a extinção foram feitas seleções do grupo de animais com as características desses ecotipos, como resistência ao meio ambiente e sobrevivência à caatinga.

“Eles são animais tão adaptados que costumam tirar espinhos de plantas xerófitas, como mandacaru e cabeçade-frade, com a cabeça, os chifres e os cascos, comendo as plantas”, informa Pedro, da EBDA. As curiosidades são muitas e ele trata como “tipo interessante” o carneiro Rabo Largo, que, de acordo com historiadores, veio da África do Sul para o Brasil em 1856, foram soltos nessa região, inicialmente em Campo Formoso e depois em todo o Nordeste.

Pedro da Silva ressalta que são os mais rústicos: “Têm na anca e na cauda uma reserva de gordura grande, com a mesma função do camelo com a água. Em época de seca, utilizam a reserva de nutrientes para sobrevivência”, ressalta o veterinário.

MELHORAMENTO –Na estação experimental da EBDA, em Pilar, são realizados trabalhos de melhoramento com seleção dos maiores e melhores animais entre os nativos. Existem grupos de Repartida, de Morada Nova, animais que, à medida em que vão recebendo alimentação, passam a produzir quase que igualmente às raças exóticas. Apesar de muitos afirmarem que os animais rústicos comem qualquer coisa, para ser produtivo precisa receber alimentação adequada.

Silva, da EBDA, acredita que se as raças exóticas forem deixadas na caatinga sem suplementação, elas também vão se descaracterizar. Para o veterinário da EBDA, com melhor alimentação, as raças nativas chegam a um padrão de valorização/produção de carne, pele e leite de algumas raças exóticas importadas e que ainda vão se adaptar. “A valorização dos animais nativos aumenta a produtividade e, como o grande proprietário desses animais é o agricultor familiar, esse aumento criará mais oportunidades”.