Barragem no sul recebe reprovação

08/09/2008

Barragem no sul recebe reprovação

 

Centenas de moradores de Itacaré, Ubaitaba e Aurelino Leal, no sul do Estado, promoveram uma manifestação, na tarde de ontem, contra a construção de uma barragem para a implantação de uma usina hidrelétrica no Rio de Contas. Pequenos agricultores e pescadores estão apreensivos, porque a área, que deve ser inundada, atinge fazendas e casas, onde vivem cerca de 12 mil pessoas, no distrito de Taboquinhas e nas vilas de Água Fria, Apertado e Rasga Camisa, em Itacaré, e Faisqueira, entre Ubaitaba e Aurelino Leal.

Segundo Jocinéia Santos Silva, vice-presidente da Associação Social, Cultural Eco-Aventuras de Taboquinhas, que liderou o movimento, a barragem será construída na altura do Parque das Corredeiras, área protegida por lei municipal, impedindo a prática de esportes radicais no rio, que teria a terceira melhor área do mundo para a prática do rafting. O turismo rural e os esportes radicais atraíram empresas e são alternativas de emprego e renda para moradores dessas localidades enfrentarem a crise do cacau.

Jocinéia Silva disse que, há cerca de três meses, as empresas Empa Engenharia e Perfil Agrimensura já trabalham na área, uma das quais está fazendo levantamento topográfico e realizando medição. A líder comunitária afirma que as duas empresas iniciaram os trabalhos sem dar satisfação à comunidade.

“Elas estão invadindo as propriedades e colocando piquetes para fazer a medição, trazendo muita apreensão, porque a comunidade é pobre e não tem para onde ir se for desalojada de suas terras”, diz Jocinéia.

O pequeno agricultor André Bispo Costa, observa que há 70 anos vive numa pequena roça, na qual colhe cacau, manga, pinha e laranja e, se tiver suas terras alagadas, não terá como recomeçar em outro local. Muitos moradores vivem da pesca do robalo, acari e de camarões de água doce, como pitu e curuca.

A presidente da associação, Marijane Menezes Oliveira, lembra que, com a crise da economia cacaueira, a esperança de muitas famílias é sobreviver com os empregos gerados com a expansão dos esportes radicais, que atraem praticantes de rafting e tirolesa até do exterior.

A construção da barragem e da hidrelétrica vai trazer também prejuízos ambientais, porque no local apontado pelo projeto da empresa que vai fazer a obra o rio tem vegetação preservada.

“Nós não queremos repetir desastres ambientais ocorridos em outras áreas do País”, salienta Mar ijane.

SEM LICENÇA – Segundo Jocinéia, o Centro de Recursos Ambientais (CRA) não teria dado licença para as duas empresas trabalharem.

Com apoio dos dirigentes da Área de Proteção Ambiental de Itacaré (APA), a comunidade de Taboquinhas levou a lista das pessoas que já tiveram sua propriedade ou casa invadida por homens que fazem o levantamento topográfico e a medição e entrou com uma denúncia noMinistério Público. A promotoria já teria intimado as empresas e está investigando de quem elas receberam autorização para se instalar na região.

Jocinéia afirmou que no próximo dia 16 uma das empresas disse que vai apresentar o projeto de construção da barragem e falar sobre as compensações para a comunidade.

Miguel Bonfim de Souza, presidente da Associação de São Gonçalo, que fica do outro lado do Rio de Contas, comenta que os cerca de 3 mil habitantes do local dependem do rio para sobreviver e ter acesso às cidades.

“Quando construírem a barragem o rio vai secar”, diz. Miguel salienta que não existe transparência nas duas empresas, já que moradores procurados por elas receberam informações diferentes sobre desapropriação e indenização de terras.