Atividade gera renda de R$ 150 milhões por ano
Já não é de hoje que lavoura não é mais a única fonte de renda do produtor agrícola. Uma parcela significativa deles complementa a renda abrindo a porteira a visitantes para atividades turísticas. De acordo com estimativas da Associação Brasileira de Turismo Rural (Abraturr), cerca de 50% da renda embolsada pelos agricultores que se dedica ao turismo vêm da arte de receber pessoas em suas propriedades. Alguns conseguem receita ainda mais elevada, e suas lavouras e criações foram relegadas a segundo plano. Passaram a se dedicar integralmente ao turismo rural. A lavoura e a criação só é mantida para garantir a paisagem bucólica própria da zona rural. Segundo a vice-presidente da Associação, Andréia Roque Junqueira de Aran-tes, para uma fazenda abrir as porteiras aos turistas, "é necessário apenas fazer uma adequação nas instalações".
O turismo rural se desenvolveu no campo brasileiro há cerca de 30 anos em Lages, região sul de Santa Catarina. Como a renda era insuficiente para sustentar as famílias que, até então, só dependiam do resultado das atividades no campo. Hoje, além de complementar o orçamento do produtor, o turismo rural contribui para reunir as famílias que, em busca de recursos, se dispersava em busca de empregos urbanos. As novas gerações, que quase sempre deixava a roça para tentar a vida na cidade, estão fazendo o caminho inverso. São os filhos dos primeiros empreendedores do campo que tocam esse agronegócio.
A mama Odete Bettú Lazzari tem endereço na Estrada do Sabor, roteiro turístico traçado em 1999 na zona rural de Garibaldi, Serra Gaúcha. Ao lado das quatro filhas, que retornaram para lá findo os estudos, Odete recebe os visitantes com a mesa farta de massas que ela mesma prepara artesanalmente. Ao redor da casa de chão batido fundada pelos colonos italianos, o turista pode se aventurar pelas plantações de uva, maçã e outras culturas frutíferas. "Não tem por que sair daqui, o turismo melhorou muito a vida no campo. A gente não precisa mais buscar dinheiro fora", explica a jovem Raísa Lazzari, caçula de Dona Odete.
Na vizinha Bento Gonçalves, outro roteiro turístico é oferecido aos visitantes do campo. Ao longo da linha Palmeiro, pedaço de terra que recebeu os primeiros imigrantes italianos, foi construído o que hoje é considerado o maior acervo arquitetônico em meio rural do país. A região e os que nela viviam entraram em decadência com a mudança do traçado da estrada que liga a capital ao norte do estado. O turismo rural foi então plantado como alternativa para movimentar a economia local. Desde 1992, essas casas de pedra atraem pelo menos 50 mil turistas todos os anos. São 53 pontos de observação e outros 13 de visitação, que desenham esse que é conhecido como Caminhos de Pedra.
De acordo com Nestor Foresti, secretário-executivo da Associação Caminhos de Pedra, em 16 anos de vida, o roteiro turístico da zona rural de Bento Gonçalves já recebeu cerca de R$ 3 milhões de investimentos, público e privado. Ao todo, 23 municípios da região de uva e vinho, como é conhecido esse pedaço do Rio Grande do Sul, oferecem opções turísticas traçadas por pequenos agricultores em meio rural.
A Associação Paulista de Turismo Rural (Abraturr SP) foi a última das quatorze associações estaduais a se fundar no Brasil. "Os nossos problemas no campo chegaram mais tarde, conseqüentemente o turismo rural também. Ele não era visto como uma opção lucrativa pelos produtores", explica Arantes. A demora não impediu que a Associação Paulista se tornasse a maior do país. São 1.100 empreendimentos de turismo rural cadastrados, e eles se dividem em turismo eqüestre, histórico, de agricultura familiar e turismo rural pedagógico.
Baseado em estimativas ainda incipientes, a Abraturr SP calcula que os produtores do estado faturem cerca de R$ 1,5 milhão por ano, e isso sem o devido incentivo por parte do governo. "Nós somos a menina dos olhos do Ministério do Turismo por sermos ambientalmente corretos, mas ainda não fomos encarados como prioridade", lamenta. Segundo a agrônoma que há 20 anos percorre esta estrada de chão, o turismo rural não é alvo de uma política pública nacional, diferentemente de outros países, como a Argentina. "Existem algumas ações pontuais desenvolvidas pelos ministérios do turismo, do desenvolvimento agrário e da agricultura, mas falta encarar de frente o fato de que a vocação turística da maior parte do Brasil é rural", conclui Andréia Arantes. Os agricultores, que agora também são pequenos empreendedores, já entenderam que no meio rural o turismo pode e deve ser sim fonte de sustentabilidade.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 10)(Gilmara Botelho)