Frustração substitui euforia em projetos de etanol nos EUA

17/09/2008

Frustração substitui euforia em projetos de etanol nos EUA



Em junho de 2006, a Ford Heights Ethanol ILC entrou com uma requisição para construir uma destilaria em Illinois, na cidade que leva seu nome. A promessa era de um renas cimento econômico que substituiria as casas abandonadas e lojas fechadas. Dois anos depois, nenhum trabalho foi iniciado no município.
Para Ford Heights e outras cidades agrícolas dos Estados Unidos, a revolução de empregos de "colarinho verde", antevista após as exigências do governo federal em relação ao uso de biocombustíveis, é um sonho adiado. Mato que chega até o joelho e pneus velhos cobrem o local, enquanto os preços recordes do milho, principal matéria-prima do etanol no mercado americano, desencorajam investimentos em novas usinas.
O setor, que movimenta US$ 20,8 bilhões, talvez devesse atribuir a culpa a si mesmo. As investidas precipitadas levaram à construção de 168 usinas de etanol, que já produzem mais do que os Estados Unidos exigem para ser adicionado à gasolina neste ano. As destilarias compram tanto milho - em torno de 30% da colheita dos EUA prevista para este ano - que acabaram influenciando, em parte, elevações nos preços, segundo o Departamento de Agricultura: americano (USDA).
"Eu ficava dizendo que eles iam matar a galinha dos ovos de ouro", afirma Jim Jordan, presi­dente da Jim Jordan & Associates, consultoria da área de com­bustíveis de Houston. "De fato, construímos em excesso. Isso é bastante devastador".
O presidente dos EUA, George W. Bush, e o candidato à presidência do Partido Democrata, Barack Obama, senador por Illinois, apóiam o etanol como forma de ajudar os agricultores do país e de reduzir a dependência de petróleo importado. b etanol é destilado a partir de grãos de milho nos EUA e misturado com a gasolina. Um bushel de milho (o equivalente a 25,40 quilos) rende 2,75 galões (10,40 litros) de etanol.
O entusiasmo inicial deu lugar à preocupação de que desviar as safras de milho para produzir combustível acelera a alta de pre­ço dos alimentos. Algumas empresas de alimentos dos EUA, en­tre elas a processadora de frango Tyson Foods, de Springdale, Arkansas, formaram em junho um coalizão chamada "Alimentos Antes de Combustíveis" para fa­zer oposição à obrigatoriedade do uso do etanol. O candidato republicano à presidência, o senador JohnMcCain, tem "sido tradicionalmente contrário aos subsídios ao etanol, que distorcem o mercado", disse um de seus porta-vozes, Tucker Bounds.
O etanol pode ser responsável por 20% da "inflação de alimentos" nos Estados Unidos, segundo Ephraim Leibtag, economista do Departamento de Agricultura dos EUA Os preços dos alimentos no país podem ter alta de 6% neste ano, a maior desde 1980, segundo estimativa do departamento.
O excesso de capacidade para produção de etanol no país faz com que as instituições de crédito evitem financiar usinas de etanol, afirma Mike Tian, analis­ta da Morningstar, de Chicago. "Muitas dessas cidades que tinham esperança de conseguir uma usina de etanol provavelmente não vão conseguir", diz.
O prefeito de Ford Heights, Saul Beck, afirma ter ficado exultante em 2006 coma perspectiva de ter uma destilaria em sua cidade, onde, segundo o censo americano, 49% dos 3,3 mil habitantes vivem na pobreza.
Pelo menos três produtores de etanol abriram o capital na­guele ano: Aventine Renewable Energy Holdings, VeraSun Energy e Green Plains Renewable Energy, em Omaha, Nebraska. A certa altura, a Coalizão Americana pelo Etanol contabilizou projetos para a construção de 500 usinas de etanol no país, segundo Ron Lamberty, vice-presidente da organização do setor, de Sioux Falls, Dakota do Sul.
Quando a Ford Heights Etha­nol candidatou-se à construção da usina, que exigiria investimento de US$ 130 milhões, .os produtores recebiam, em média, US$ 2,64 por galão produzido. Em 10 de setembro, a alta da cotação do milho havia reduzido essa margem de lucro para US$ 0,57, segundo dados da BIoomberg. O preço do milho aumentou 58% nos últinios 12 meses, para US$ 5,3675 o bushel.
"Este é um grande obstáculo no caminho", disse Walker Filbert, presidente da Heartland Ethanol, de Knoxville, Tepnessee, que abandonou os planos de construir sete usinas em lllinois.
Em Ford Heights, restos car­bonizados de casas salpicam a vizinhança do terreno que seria da usina. "Ela teria trazido alguns empregos", diz o prefeito Saul Beck, de 71 anos. "Eles conseguiram a permissão e nunca mais ouvimos nada". 
Os credores não queriam financiar o projeto, disse Jonathan Khan, presidente da Ford Heights Ethanol. "Um de nossos maiores arrependimentos é que não conseguimos ter uma fábrica em uma comunidade que precisa disso tão desesperadamente", afirmou.
Em lllinois, 795 milhões de galões de etanol estão em suspenso, segundo estiniativa da empresa de investinientos William Blair & COI, de Chicago. Isso desacelerou a construção e o crescimento de postos de trabalho permanentes ligados ao mercado do etanol, segundo Tom Hauser, vice-presidente do CoBak, de Omaha, que dá crédito a empresas de etanol. Cada usina emprega cerca de 50 pessoas, que ganham US$ 4O mil anuais em média, diz Hauser.
As 168 usinas tinham capacidade para produzir 9,96 bilhões de galões em 26 de agosto, quase 1 bilhão a mais do que os EUA precisarão neste ano, segundo o grupo setorial Renewable Fuels Association, de Washington. Outras 43 fábricas serão construídas ou amplia-las, o que elevará a capacidade para 13,8 bilhões de galões. A maior parte produz etanol apartir do milho.
Mesmo produtores estabelecidos deetanol que tem o milho como matéria-prima dão mais ênfa­se ao combustível feito à base de celulose de fontes alternativas, como lascas de madeira. O processo, ainda imperfeito, não é promessa de benefícios imediatos para as cidades com agricultores de milho nas proximidades.
A Poet LLC, de Sioux Falls, maior produtora de etanol dos EUA, informou em agosto que abrirá uma usina de US$ 4 milhões para produzir etanol de espigas de milho até o fim do ano. A capacidade de produção da unidade será de 20 mil galões.
Tommy Vietor, um dos porta­vozes de Barack Obama, ao ser perguntado se o candidato poderia reduzir o apoio ao etanol de milho se for eleito presidente, relembrou um discurso realizado em abril, em Indiana. "Temos de reconhecer que o etanol baseado no milho é uma tecnologia de transição", disse o candidato democrata na ocasião. (Colaborou Peter Robison, de Seattle)