Indústria vai a Brasília por recurso ao produtor
Com receio de faltar soja para processar e exportar, indústrias e tradings se juntam a produtores rurais de Mato Grosso para pedir mais crédito ao Governo Federal. A primeira parte da conversa ocorre hoje na sede da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e, em seguida, na Casa Civil, em Brasília. A segunda etapa está marcada para amanhã, no Ministério da Fazenda. A cadeia da soja pede que o governo libere R$ 2 bilhões de suas reservas em financiamento às tradings para que estas repassem o recurso via empréstimos ao produtor. "É a única forma desse dinheiro chegar ao sojicultor de Mato Grosso, que está com capacidade de crédito esgotada nas instituições oficiais de crédito", diz Marcelo Duarte, diretor-executivo da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja).
Sem 25% do adubo necessário para plantar, produtores de soja deste estado estimam que a produtividade deve cair com menor uso de tecnologia e afetar em 10% a oferta de soja. "Nossa produção deve recuar do patamar de 18 milhões de toneladas para 16 milhões de toneladas. Isso se o clima for bom", acrescenta Duarte.
Reduzir volume de soja no País significará perder mercado, na avaliação de Sérgio Mendes, diretor da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec). "Reverter isso depois é muito difícil. Além disso, o Brasil tem condições de aproveitar essa crise para ganhar espaço", analisa. Ele afirma não ter neste momento uma estimativa do tamanho que pode chegar o déficit de soja para exportadores e indústrias em 2009 caso, de fato, caia a produtividade das lavouras brasileiras. Para Mendes, as avaliações sobre os impactos dessa crise mundial ainda são muito prematuros.
"Acredito que os alimentos serão os últimos a serem atingidos nessa crise. No entanto, o cenário é de incerteza. Não sabemos neste momento se teremos demanda para todo o volume que teremos", diz Mendes. Também preocupada com o cenário, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) reforça o pleito em Brasília. Fábio Trigueirinho, secretário-geral da entidade, diz que o receio trazido com o menor uso de tecnologia é que a condição deixa a lavoura mais suscetível a perdas em caso de intempéries no clima. "Se tiver algum problema climático, os feitos sobre a produtividade serão ainda maiores", diz.
Goiás
As lavouras de soja goianas também estão com menos adubo do que o necessário, segundo Pedro Arantes, economista da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Faeg). Por conta do menor uso de tecnologia, é provável, segundo ele, que a produtividade recue em torno de 5%. "Isso se não houver nenhum problema no clima", pondera Arantes.
Na safra passada, a produtividade do estado foi recorde - de 3 mil quilos por hectare - e para Arantes, é improvável que ela se repita. "A média histórica é de 2,7 a 2,8 mil quilos por hectare. E ela que deve predominar no ciclo 2008/09", acredita.
Para Fernando Pimentel, diretor da Agrosecurity, as tradings já cumprem o papel de banco no financiamento do produtor rural do Centro-Oeste e, já que o governo está provendo liquidez para os bancos privados neste momento de crise, é razoável que também estenda a medida para as tradings. A estimativa da consultoria é de que, até então, de 40% a 50% da safra de Mato Grosso, por exemplo, tenha sido financiada com empréstimos das tradings. "De 25% a 70% da produção dessa região é pré-vendida para financiar a safra de verão e a safrinha. Esse recurso faz parte do planejamento do produtor, se ele não está disponível, traz conseqüências. Neste momento, por exemplo, a safrinha de milho está inviabilizada, pois o produtor não conseguiu pré-vender a safra de soja até agora", explica Pimentel.
Pimentel afirma que hoje não há espaço para nenhuma quebra de produção no cerrado brasileiro. "A folga que eventualmente o produtor conquistou na 2007/08 já está comprometida com a alta dos insumos e com a queda do preço, tanto da soja, quanto do milho no mercado interno", afirma o especialista. Em uma semana o produtor perdeu 5% em rentabilidade projetada com o recuo dos preços da soja e do milho que, no cerrado, recuou de 5% a 6% no período, segundo levantamento da Agrosecurity.
Outros pleitos
De acordo com Duarte, da Aprosoja, outros pleitos serão defendidos na Casa Civil e no Ministério da Fazenda. Entre eles, a prorrogação de cerca de R$ 1 bilhão de dívidas de investimento de Mato Grosso que vencem no dia 15 de outubro. "Não há dinheiro para pagar essas parcelas. O estado precisa dessa postergação", diz Duarte. Também serão discutidas alternativas para garantia de renda, como leilões de produto da Companhia Nacional de Abastecimento.