Crédito para setor será ainda mais difícil com crise
Em entrevista à Agência SAFRAS, o presidente da Comissão Nacional de Cereais, Fibras e Oleaginosas da CNA - Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, José Mário Schreiner, ressaltou que a liberação de créditos para o setor do agronegócio tende a ser ainda mais difícil com a crise econômica mundial. "O produtor enfrenta a falta de crédito, taxas de juros em alta e o arrocho dos setores público privado, que estão reduzindo a oferta de recursos, o que abrange também as tradings", analisa. Para Schreiner, o produtor brasileiro enfrenta um cenário de custo alto, enquanto observa, por outro lado, uma queda livre no preço das commodities. "A receita do produtor está tendo uma queda livre frente às despesas", afirma.
O dirigente sinaliza a dificuldade para a obtenção de créditos junto ao Banco do Brasil, que está sendo muito seletivo nas liberações, impedindo muitos produtores de terem acesso a recursos. "O cenário indica que 80% dos insumos necessários à safra foram recebidos pelos produtores e ainda restam 20% a serem entregues. Diante da falta de crédito existem apenas duas alternativas: ou o produtor reduz a área em 20% por conta desse volume de insumos ainda não recebido ou dilui os 20% que faltam em 100% da área, reduzindo os investimentos em tecnologia, ficando sujeito a colher uma safra menor na ocorrência de qualquer intempérie", explica.
Schreiner entende que a antecipação de recursos por parte do governo ajuda, mas é insignificante para resolver a crise. "O governo está jogando com a platéia, pois os R$ 65 bilhões destinados à agricultura empresarial e os R$ 13 bilhões voltados à agricultura familiar estão bem aquém do volume de recursos necessários pelo setor, da ordem de R$ 110 bilhões. É preciso lembrar que apenas 30% dos financiamentos estão sendo feitos pelo crédito oficial", alerta. O presidente da Comissão Nacional de Cereais, Fibras e Oleaginosas da CNA acredita que o governo poderia adotar medidas mais ousadas, com o Banco Central tomando resoluções de melhores ofertas de crédito, oferecendo maior flebixibilidade.
"Já o Banco do Brasil deveria rever seu conceito de risco, diante da dificuldade de acesso criada para a busca de crédito", pontua. Schreiner destaca que no dia 14 vence o prazo de renegociações de parcelas de dívidas dos produtores, o que é um contra-senso, na medida que esse prazo tira volumes ainda maiores de créditos de circulação em um período de definições de plantio. "Seria preferível se o governo deixasse isso para mais adiante, quando o produtor já detiver a produção", comenta. "Estudo mostra, por exemplo, que 55% dos produtores de Goiás não teriam condições de arcar com essa parcela no momento, principalmente nesta época de plantio em cima da hora ou já em início", acrescenta.
O dirigente sinaliza que a valorização do dólar pode ver vista como positiva, pois traz uma pequena vantagem para quem exporta. "Mas isso é pouco se levar em conta a forte queda no preço das commodities e o custo dos insumos calculados em dólar", afirma. Na avaliação de Schreiner, o atual momento da economia mundial indica a necessidade de cautela nos investimentos. "O produtor tem de ter consciência e tranqüilidade. Se não tiver cautela agora, no próximo ano, quando a prateleira estiver cheia, ninguém vai se dar conta de que quem vai pagar a conta será ele", conclui.