Restrição de crédito derruba demanda por fertilizantes
Já não bastasse a notória restrição de crédito imposta pelo mercado mundial, que invariavelmente vai acertar a demanda em cheio, o setor de insumos deve conviver - pelo menos nos próximos meses - com uma sensível redução no consumo por parte dos produtores agrícolas, que já não devem encontrar as tradings como avalistas para suas futuras dívidas, além de optarem por economizar nas doses de fertilizantes aplicados nas lavouras semeadas nesta safra 2009.
De acordo com as previsões da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), a média de consumo de fertilizantes dos últimos 18 anos, que sempre ficou em torno de 32% no primeiro semestre e 68% no segundo, deve se apresentar de maneira mais equilibrada em 2008. O ano ainda não acabou, mas Eduardo Daher, diretor-executivo da Anda, acredita que os volumes consumidos ficarão distribuídos da seguinte forma: 47% no primeiro semestre e 53% no segundo. Parte desse equilíbrio se deve à entrega antecipada de insumos verificada no primeiro semestre. "O receio do aumento dos preços dos fertilizantes e também da falta de oferta no mercado mundial alimentou uma corrida dos produtores para estocar o produto, e a crise deve agravar ainda mais essa redução do consumo a partir de agora", analisa Daher.
Os 15% de diferença quando comparamos os dois segundos semestres analisados já são sentidos nas contas de uma das maiores empresas do segmento. "Se não fosse a atual restrição de crédito, iríamos aumentar nossas vendas em 20%, mas agora nós estamos com o pé no freio", pondera o realista vice-presidente da Bunge Fertilizantes, Ariosto Riva. Ele admite um recuo de 15% na demanda pelo produto nas contas da empresa, não só como resultado da economia em adubação feita por parte dos agricultores, mas também pelo receio iminente das tradings em financiar as lavouras brasileiras. "O que nos preocupa é a inadimplência. Hoje é um risco financiar o agricultor", admite Riva.
De acordo com estimativas apresentadas pelo consultor André Pessoa da Agroconsult, a fatia de financiamento que cabia às tradings deve reduzir de 27% em 2008, para 18% no próximo ano. Em contrapartida, é o produtor quem vai arcar com uma maior parcela de recurso próprio para financiar o setor, o montante de fundos dessa origem deve subir de 31% para 50% em 2009. "O resultado desse novo cenário nós só vamos sentir em 2010", diz Pessoa.
"Está absolutamente evidente que estamos atravessando uma crise de crédito, o que restringe efetivamente a demanda por fertilizante e por qualquer outro tipo de insumo. A novidade positiva é a redução do compulsório, que vai vitaminar o mercado em R$100 bilhões, mas essa medida anunciada pelo governo ainda não vai ser sentida. Seguramente a entrega de setembro foi menor que a do mesmo mês do ano passado, e isso vai se repetir nos próximos meses", calcula Daher uma semana antes da divulgação oficial do balanço do mês em questão. Ele calcula que aquele crescimento de 4% do consumo previsto no início do ano não deve chegar a 2%. "Devemos fechar o ano de 2008 em 25 milhões de toneladas". No ano passado 24,6 milhões de toneladas adubaram as lavouras brasileiras.
Mas apesar da conseqüente desaceleração da produção e de uma aparente estagnação dos preços, o desempenho anual do setor promete ser um dos melhores, projeta Geraldo de Barros coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). "Haverá uma desaceleração no agronegócio como um todo, mas não uma queda. Até julho, o segmento de insumos liderava a expansão do agronegócio em alta velocidade. Como o segmento de insumos já realizou o grosso das vendas e em muitos casos já recebeu adiantado, o produtor rural é que poderá ter dificuldades se o crédito permanecer escasso", vislumbra Barros. O pesquisador acredita ainda que o produtor rural que realizou investimentos significativos em máquinas e insumos apostando na alta sustentada das commodities, "poderá ficar asfixiado na próxima colheita".
André Pessoa projeta uma acomodação moderada dos preços de todas as commodities, inclusive as minerais, mas como dono de apenas 2% do mercado mundial, o Brasil, segundo Pessoa, não tem papel decisivo nas tomadas de preços dos fertilizantes.
Enquanto um estudo recente do Fundo Monetário Internacional (FMI), realizado e apresentado em meio a atual crise econômica, prevê um crescimento de 3% da economia mundial, a Agroconsult joga essa estimativa para 0,3% negativo.