"É preciso se preparar para a guerra"

14/10/2008

"É preciso se preparar para a guerra"


Para ex-ministro, governo deve retomar política de preços mínimos para dar mais segurança aos produtores rurais.

 

A crise americana já impacta o agronegócio brasileiro e exige medidas rápidas do governo para evitar uma quebradeira no campo. O alerta é do ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Ele discorda dos analistas que acreditam que o setor agropecuário brasileiro, bola da vez no mercado mundial, está imune aos efeitos da crise. Na avaliação dele, a crise imobiliária americana causa a fuga dos capitais que financiam as exportações e agrava os problemas que os agricultores já enfrentam, como aumento no custo de produção e falta de crédito.

Rodrigues contou ao Estado que, na incerteza, muitos agricultores estão desistindo do plantio. Aos que o procuram, recomenda plantar apenas o que puder com financiamento agrícola ou, se possível, com recursos próprios. Ao governo, ele sugeriu medidas como crédito mais rápido e a retomada da política de preços mínimos de garantia para dar segurança ao setor. O ex-ministro pesou cada palavra com o cuidado de não causar pânico, mas não contemporiza: "É preciso se preparar para a guerra", disse.

Que efeitos a crise americana acarreta para o setor agropecuário brasileiro?

O primeiro efeito é na disponibilidade de crédito rural. Em relação ao crédito, tínhamos um problema interno independente da crise externa, determinado pelo brutal aumento de custo para os produtores rurais decorrente da alta nos preços dos fertilizantes, dos combustíveis e do aço. Tínhamos uma demanda de mais reais por hectare para o crédito de custeio em função desse custo de produção. O que aconteceu foi uma redução nos depósitos à vista quando houve a extinção da CPMF. Como esses depósitos são a maior fonte de recursos para o crédito rural, tivemos um descasamento entre a maior necessidade e a menor oferta de crédito. Ainda em relação à questão interna, muitos produtores que teriam acesso ao crédito em situação normal não terão porque não resolveram seu próprio endividamento. A esses dois fatos se agrega um terceiro ainda de origem interna que era a expectativa pleiteada pelo próprio governo de aumentarmos em 5% a produção, com aumento de área plantada inclusive, para o Brasil se credenciar a ocupar os mercados que se abriam com preços mais elevados, em função do desequilíbrio entre oferta e demanda de alimentos em termos globais.

E ainda vamos ter esse aumento de produção?

A idéia do governo era produzirmos mais para ocupar esse mercado criado pela explosão de demanda nos países emergentes, onde as populações e a renda per capita vêm crescendo mais do que nos países desenvolvidos. Essa demanda agregada não foi atendida por uma maior oferta até mesmo em função de secas em vários países do mundo, entre os quais o Brasil que, em 2005 e 2006, deixou de produzir mais de 25 milhões de toneladas por causa de condições de clima adverso. Portanto, precisávamos de mais reais por hectare, e como teremos mais hectares plantados, um volume adicional para a área a ser plantada. Isso já indicava uma safra mais cara e custosa, com menos crédito.

Aí vem a crise e interfere nesse cenário.

Interfere de maneira negativa em três vertentes. Primeiro, no financiamento das multinacionais, moageiras, tradings, sobretudo de soja, que representam quase 30% da oferta de crédito para essas culturas. Essas empresas tiveram corte de crédito nas suas matrizes e estão deixando de financiar sobretudo o produtor de soja. Houve redução de crédito especialmente no Centro-Oeste, onde estão os grande produtores. A segunda vertente foi a redução do Adiantamento de Contrato de Câmbio, o ACC, que é o recurso que financia as exportações, inclusive as agrícolas. No ano passado, o agronegócio exportou o equivalente a 36% de todo volume exportado pelo Brasil em dólares. A escassez de recursos para a exportação pode comprometer até o próprio saldo comercial da balança brasileira. O terceiro fator: o sistema financeiro brasileiro está assustado com esse processo e tem burocratizado o crédito para o agricultor. Embora existam regras, o dinheiro não está chegando na mão do agricultor. A agricultura é uma atividade com tempestividade. Se o dinheiro chegar depois da chuva, depois do plantio, é inútil. Todos esses fatos sinalizam uma safra muito mais cara, muito mais exigente de recurso de crédito e com muito menor disponibilidade desse crédito.

Mas esta safra já não está salva pelo agricultor que comprou os insumos lá atrás?

Uma boa parte sim, mas nem todo mundo comprou. O setor de fertilizante teve no primeiro semestre deste ano o maior semestre de sua história em termos de venda, mas o segundo semestre está deplorável. As vendas estão muito baixas. O agricultor não é bobo, ele já botou as barbas de molho. Sei de casos de agricultores que, assustados, tentaram passar adiante sementes e adubos adquiridos para a safra, e não encontraram interessados. A oferta de máquinas para aluguel no campo é impressionante e não há demanda.

 

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