Ostras: aprendendo a cultivar corretamente
Aída Soares dos Santos, de 38 anos, é catadora de marisco desde pequena nos manguezais da localidade de Santiago do Iguape, distrito de Cachoeira (a 110 km de Salvador).
Vive do que consegue catar no mangue e ganha apenas R$ 30 por mês para sustentar os dez filhos.
A renda da família da marisqueira, se juntar com a do marido pescador, não passa de R$ 190. Porém, um projeto de fomento ao cultivo de ostras pode começar a mudar essa dura realidade.
Em Santiago do Iguape, cerca de 1.400 famílias vivem da pesca e da mariscagem. Com cerca de quatro mil habitantes, juntando os moradores de Santiago e dos assentamentos rurais, a região do Iguape, localizada em um lagamar, ainda vive praticamente da economia de subsistência.
A maior parte das mulheres está envolvida diretamente com a mariscagem em diversas localidades ribeirinhas do interior do Estado. O que ganham, segundo elas, ainda é pouco, mas ajuda a complementar a renda familiar, para que não passem fome.
É lá que a Bahia Pesca começou, há três meses, a implantação de 30 módulos, dos 150 módulos previstos, de cultivo de ostras na Baía de Todos os Santos. Foram investidos, na implantação do projeto, cerca de R$ 990 mil. Já foram distribuídas em torno de 600 mil sementes.
No Iguape, foram 48 mil sementes, que já estão em processo de engorda nos travesseiros. Cada família cuida de sua estrutura. "A manutenção é simples, pois não precisade ração, apenas fiscalização das estruturas", explica Eduardo Rodrigues, gerente de Aqüicultura.
INCREMENTO - O programa pretende amparar as marisqueiras e pescadores do interior do Estado e está inserido no Plano de Fortalecimento da Pesca Artesanal. "O objetivo é levar para essas comunidades uma nova alternativa para o incremento na renda familiar, tendo em vista que a média de renda por família não ultrapassa os R$ 200", frisa Eduardo Rodrigues.
Espera-se que, a partir de aproximadamente dez meses, quando a ostra atingir o tamanho comercial de 80 mm, cada produtor possa retirar de seu cultivo, mensalmente, por volta de 150 dúzias de ostra.
Comisso, a família da marisqueira Aída Soares e as demais que estão inseridas no projeto poderão chegar a atingir uma renda média de R$ 500 a R$ 600 por mês.
Com as estruturas montadas, cada família ganha da Bahia Pesca duas mil sementes, que são ostras de tamanho pequeno, de aproximadamente 10 mm, as quais serão colocadas nos travesseiros ou lanternas de cultivo. A família da marisqueira Dilma Santana Neri, 37 anos, também cuida de um módulo de ostras. "Espero que apareçam mais mariscos, porque eles sumiram do mangue. Não temos muito para vender. Eu vou para o mangue e meu marido para a roça. Minha esperança é que melhore", conta.
Dilma diz que cata 1 kg de mariscos por dia. "Se conseguir vender, não chega a R$ 10", lamenta.
MERENDA - De acordo com a Bahia Pesca, a ostra já começou a ser introduzida na merenda escolar em Estados do Sul do País, por ser uma excelente fonte de zinco e, portanto, benéfica na dieta alimentar das crianças com idades de 1 a 12 anos. "Tendo esses e outros dados em mãos, a Bahia Pesca está realizando estudos de mercado, a fim de fortalecer a cadeia produtiva da ostreicultura no Estado", adiantou Eduardo Rodrigues.
Ao contrário de Santa Catarina, que responde por 90% da produção brasileira e, nos últimos cinco anos, dobrou a quantidade de ostras vendida no mercado, a ostreicultura na Bahia ainda é uma atividade rudimentar, por isso difícil de obter dados da produção.
"A Bahia Pesca busca captar investimentos para a atividade, ensinando as marisqueiras a cultivar ostras, melhorando a qualidade do produto e aumentando a produção", garantiu Rodrigues. Ele completa afirmando que "o que se consome na Bahia não é o que se produz.
A qualidade do produto não atinge os grandes mercados".
"O que pretendemos é fomentar a atividade, buscando meios de comercialização e aumento do consumo, com divulgação e publicidade do produto e outras ações".
Em Santa Catarina, a ostra cultivada e comercializada é da espécie Crassostrea gigas, uma espécie exótica que veio do Pacífico e foi implantada no Sul do País. No Norte e Nordeste, a ostra Crassostrea rhizophorae é nativa . As temperaturas das águas do Norte e Nordeste são mais altas que as do Sul, por isso as Gigas não sobreviveriam a essas altas temperaturas. No Estado, a dúzia da ostra in natura é vendida por até R$ 2. Catada, pode ser encontrada entre R$ 8 e R$ 10. O quilo do catado de ostra nos mercados da capital não sai por menos de R$ 10. A dúzia da ostra in natura não sai por menos de R$ 6.
Para incentivar a atividade no Estado, a Bahia Pesca está realizando dois outros projetos em parceria com a Secretaria de Aqüicultura e Pesca (Seap), que favorecerão a comercialização e a sanidade dos moluscos cultivados no Estado. Um é o Controle Higiênico Sanitário de Moluscos Bivalves, que busca, através do monitoramento da qualidade dos moluscos, viabilizar os melhores produtos a serem colocados no mercado.
O outro projeto é o de Unidade Depuradora de Moluscos Bivalves, que visa livrar os moluscos da contaminação orgânica, causada, muitas vezes, pela falta de tratamento dos esgotos domésticos. "A construção da unidade depuradora dará maior segurança aos moluscos cultivados e capturados, garantindo a comercialização de produtos livres de coliformes fecais", salientou o gerente de Aqüicultura, Eduardo Rodrigues.
MÓDULOS - Para a implantação dos 150 módulos de cultivo de ostra, a Bahia Pesca conta com o apoio da Associação Baiana de Aqüicultura e Saúde (ABAQ), realizando o trabalho de construção dos cultivos e assistência técnica, juntamente com os técnicos da empresa.
Uma família cuida de 160 travesseiros, dispostos em quatro mesas.
Mensalmente, são colocadas duas mil sementes em cada travesseiro.
"A ostreicultura não requer exclusividade, nem demanda intensiva do tempo. O manejo no cultivo é simples, se comparado com outras atividades, e, o mais importante: não requer custo com a compra de ração e outros insumos", ressaltou Eduardo Rodrigues.
A ostreicultura também será inserida nas localidades de Madre de Deus, que contará com 28 módulos a partir do mês que vem; Jaguaripe, que tem 30 módulos; Nazaré, com 10, Ilha da Banca, com sete, Jeribatuba (nove), Baiacu e Ponta Grossa (oito) e Manguinhos (10).