Sem capital de giro, usinas negociam álcool a preço abaixo da média

04/11/2008

Sem capital de giro, usinas negociam álcool a preço abaixo da média


Às vésperas da entressafra da cana-de-açúcar no Centro-Sul do País, o preço do álcool, ao contrário do que se esperava, está em queda. "As usinas não têm crédito e precisam fazer caixa. Por isso, vendem álcool barato", explica Maurilio Biagi Filho, empresário e conselheiro da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica).

Só na semana passada, em São Paulo, o preço do álcool hidratado vendido pelas usinas às distribuidoras, sem impostos, caiu 3,85%, para R$ 0,6838 o litro, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplica (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba (SP). "Se as linhas de crédito estivessem fluindo , o preço do álcool subiria nesta época do ano", avalia Biagi. "A safra está terminando, os estoques estão baixos e, contraditoriamente, os preços do álcool estão em queda".

Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, criado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, Biagi afirma que a gravidade da crise levou à antecipação, do dia 26 para o próximo dia 6, da reunião do chamado "Conselhão".

"A crise não foi causada pelo governo nem pelo setor produtivo e o seu vetor mais sério é a falta de crédito", diz Biagi, antecipando o tema a ser discutido, na próxima quinta-feira, entre o presidente Lula e lideranças da sociedade civil organizada. "O Brasil tem condições para enfrentar a crise, mas quanto mais cedo o governo ouvir a sociedade, mais tempo terá para minimizar as conseqüências da crise", diz Biagi.

Nesta semana, também, as usinas têm de pagar fornecedores de cana e salário dos funcionários. No mês passado, com exceções localizadas, os pagamentos foram feitos à tempo, segundo Ismael Perina Júnior, presidente da Orplana, a entidade que reúne os fornecedores de cana do País. Mas ele admite que a situação dos plantadores de cana não é das melhores. "Além da falta de crédito, o preço está muito ruim", diz. Segundo Perina, o preço da médio da tonelada da cana em São Paulo é de R$ 52, 27% abaixo do custo de produção, de R$ 38 a tonelada.

"A grande maioria das usinas está em dia com o pagamento de salários e fornecedores e espero que a situação continue assim", afirma Biagi. No entanto, segundo ele, o setor sucroalcooleiro estava "andando rápido demais" e, por isso, tende a sofrer mais com a crise.