Melancia doce e sem sementes
Externa e internamente igual à comum, a variedade sem caroço traz apenas a vantagem da comodidade
CRISTINA LAURA
Muito antes de a Syngenta, empresa multinacional que atua no mercado de sementes de valor agregado, anunciar o lançamento no mercado da minimelancia, que cabe na palma da mão (A TARDE Rural, edição de 12/12/2005), desenvolvida por aprimoramento genético convencional, a Embrapa Semi-Árido, em Petrolina (PE), iniciou pesquisas, nos anos 2000, que culminaram em projetos como o da melancia sem sementes, de polpa vermelha e alto teor de açúcar.
Os frutos, adaptados ao clima semi-árido, já são colhidos em nível experimental por uma rede de instituições formada pela Embrapa Semi-Árido, Departamento de Tecnologia e Ciências Sociais da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e Embrapa Rondônia. Os pesquisadores estão envolvidos, no momento, para que esse tipo de melancia apresente bons níveis de germinação e possa chegar em breve com custo mais barato para os agricultores.
Na opinião da pesquisadora Rita de Cássia Souza Dias, solucionadas estas duas questões, poderá ser lançada no mercado a primeira melancia sem semente e com resistência ao oídio do País. A produção nacional está concentrada no pólo de irrigação de Mossoró/Assu (Rio Grande do Norte) e Aracati (Ceará), em pequena escala. A diferença de preço do material de plantio em relação à variedade com sementes pode chegar a mais de 20 vezes, o que desencoraja os agricultores a investirem em plantios comerciais.
As mudas são produzidas em bandejas de isopor, cada uma, em geral, com 28 células, que devem ser preenchidas com substrato de hortaliças, vendido em casas especializadas de produtos agrícolas. Depois disso, é colocada uma semente em cada célula, pressionando-se para que fique com cerca de um a dois centímetros de profundidade para, então, cobrir com o substrato. As bandejas devem ser colocadas em ambiente protegido, com facilidade de irrigação, de modo a manter o substrato sempre úmido.
A germinação acontece com cinco a seis dias e as sementes ficam em condições de transplante para o local definitivo em torno de 15 dias. Existe semelhança entre as melancias com sementes e as sem sementes quanto à cor externa e interna do fruto, sabor, embora as melancias sem sementes apresentem “rudimentos de sementes”, que correspondem ao óvulo não fecundado, porém, podem ser ingeridos com a polpa do fruto sem nenhum desconforto para o consumidor. A melancia sem sementes pode apresentar rachaduras na polpa com mais freqüência que as comuns. A vantagem para o consumidor está apenas na comodidade.
Os pesquisadores buscam desenvolver híbridos de melancia sem sementes que possuam também resistência a doenças limitantes à produção na região Nordeste como é o caso da provocada pelo fungo oídio. Com esse material mais resistente torna-se menor a quantidade de venenos ou pode, até mesmo, nem precisar usá-los, além de terem menor probabilidade de deixar resíduos de pesticidas nos frutos e contaminações no meio ambiente.
HISTÓRIA – O pesquisador Manoel Abílio de Queiroz, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), diz que a primeira melancia sem sementes foi obtida no Japão, em 1947, e que os estudos foram se dispersando e, hoje, nos Estados Unidos e em países da Europa, muitas pesquisas com a melancia sem sementes foram realizadas. “O mercado é crescente porque os consumidores têm se interessado pelos frutos sem sementes, a exemplo da uva. Nos EUA, o mercado está em torno de 35% e na Europa é ainda maior”, afirma.
No Brasil, os primeiros estudos de que se tem conhecimento foram realizados pela Embrapa Hortaliças, em Brasília, no início da década de 1990, mas os trabalhos não tiveram continuidade e só em 1996, a partir das pesquisas da Embrapa Semi-Árido, foi possível obter alguns híbridos de melancia sem sementes. Os estudos estão prosseguindo com o objetivo de se obter um híbrido que seja adaptado às condições brasileiras, com boa produtividade, bons frutos e resistências a algumas doenças de olha.
Atualmente, a variedade mais plantada no Brasil, a Crimson Sweet, introduzida no Vale do São Francisco em meados da década de 1980, substituiu completamente a Charleston Gray, principalmente por apresentar baixa incidência de podridão apical, maior resistência ao transporte e possibilitar a comercialização dos frutos refugos, que têm peso menor que seis quilos. O pesquisador Manoel Abílio de Queiroz é otimista quanto à colocação no mercado desse híbrido sem sementes adaptados às condições brasileiras.
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