A Rússia e a Bolívia
A crise entre a Rússia e a Ucrânia, a propósito do fornecimento de gás - com a ameaça de a Europa ficar sem energia neste inverno rigoroso -, mostra como é complicada a globalização da economia, e como é frágil a soberania das sociedades modernas. O mundo de hoje exige alto e sempre maior consumo de energia. Antes, ao homem primitivo bastava levar o fogo para onde fosse, e sempre encontraria como ateá-lo para aquecer-se e preparar a comida. O natural desejo de conforto, que surgiu na luta contra o frio, fez com que fôssemos grandes destruidores da natureza. Os arredores de Roma eram cheios de florestas, abatidas para produzir fogo e calor. Em seguida, as grandes e densas matas da Sicília desapareceram. Segundo alguns historiadores, a decadência de Roma se relaciona com o distanciamento de suas fontes de energia.
Tudo é energia. Há alguns anos, anarquistas espanhóis fizeram estudo curioso sobre o insumo de energia na atividade agrícola em seu país e a energia obtida nos produtos do campo. Os resultados foram precisos, mas, mesmo pela aproximação, mostra que se vem acentuando, de ano para ano, maior consumo de energia para a obtenção de menor quantidade de energia nos produtos da atividade rural. Se somar-se toda a energia usada no campo (no trabalho, humano e animal, nos combustíveis utilizados, nas sementes, na energia necessária para a produção dos implementos agrários) e as calorias obtidas na produção agropecuária, há ponderável perda de calorias no processo.
O caso do gás é bem ilustrativo dessa perda. Desde a década de 50, o Brasil vem substituindo a lenha pelo gás na cozinha. Hoje, até mesmo as fazendas mais distantes se utilizam do gás, desprezando a lenha abundante produzida pelas árvores e galhos secos. A energia exigida para a produção dos bujões de gás, e para o engarrafamento, somada à dos combustíveis empregados nos caminhões que os transportam, é muito maior do que aquela contida no vasilhame. Esse é um dos paradoxos da vida moderna. A não ser em casos especiais, entre eles o do saudosismo, não se usa mais o fogão a lenha.
Há implicações políticas graves no sistema de oleodutos e gasodutos. É muito difícil armazenar bilhões de metros cúbicos de gás; eles devem ser produzidos na medida de seu provável consumo, e utilizados como se utiliza a água. Se o fornecedor quiser, basta fechar a torneira, como fez Putin, e exigir o preço que quiser pelo produto. O petróleo, sendo líquido, pode ser mais facilmente armazenado, o que não ocorre com o gás.
É nesse momento que devemos render nossa homenagem a governantes como foram Vargas e Juscelino. Eles, enfrentando os pessimistas de sempre e os interesses das corporações petrolíferas americanas, criaram e consolidaram a Petrobras, de tal forma que a empresa chega agora ao momento de produção suficiente para o consumo nacional. E iniciaram a construção das grandes usinas hidrelétricas, que produzem energia sempre renovável. Hoje dependemos do gás boliviano. Espera-se que haja, da parte dos dois governos, suficiente bom senso para acordo bilateralmente vantajoso, mesmo porque o mercado de gás da Bolívia não é tão amplo quanto o mercado do gás da Rússia.
O melhor será não depender da energia de nenhuma fonte estrangeira - e parece ser esta a decisão nacional, que este e os futuros governos deverão acolher. Temos, no Brasil, grande vantagem. Nenhum outro país do mundo tem tanta superfície banhada pela generosidade da energia solar. Aqui, ela é armazenada pela massa vegetal. E ainda temos os rios que nos fazem os maiores produtores de energia hidrelétrica do mundo.
É daquela ousadia em pensar uma nação grandiosa - em que se destacaram Juscelino e Vargas - que necessitamos, nesta hora em que o dissídio entre a Rússia e a Ucrânia confirma a síntese de Gilberto Amado: nenhum povo é amigo de outro povo. Os povos são naturalmente egoístas. Se queremos ser respeitados em nossa soberania, temos que ser os senhores de nossa própria energia e dispor de meios bélicos para defendê-la dos eventuais predadores.