Bunge e J. Macêdo estreitam laços no trigo

12/01/2006

Bunge e J. Macêdo estreitam laços no trigo

Mônica Scaramuzzo

A Bunge e a J. Macêdo, as duas principais empresas do mercado brasileiro de trigo, ampliaram o acordo que firmaram em 2003. Na fase inicial da associação, a Bunge assumiu as linhas de farinhas industriais e pré-misturas da J. Macêdo, que passou a controlar as linhas de massas e farinhas domésticas de sua parceira. Agora, as duas empresas unificaram as vendas de seus produtos no segmento. Ou seja, distribuidores de ambas, que antes operavam de forma independente, passaram a negociar todas as linhas com redes atacadistas e cadeias de supermercados.

"Estamos aumentando a nossa sinergia, com a negociação conjunta de nosso portfólio", disse Adalgiso Telles, diretor de comunicação corporativa da multinacional Bunge no país. Telles ressaltou que a decisão de estreitar os laços reflete os bons resultados da parceria firmada há pouco mais de dois anos. Conforme o executivo, o acordo ampliado está em vigor desde o fim de 2005.

A unificação da estratégia de vendas, com a integração das equipes de vendas, gerou especulações no mercado de que a Bunge estaria a um passo de adquirir os negócios da J. Macêdo. Ambas negaram. Para fontes do setor, a parceria é mais vantajosa para a Bunge, uma vez que os segmentos de farinhas industriais e pré-misturas oferecem margens de lucro mais elevadas que as áreas de massas e farinhas domésticas.

Segundo as mesmas fontes, o grupo J. Macêdo estaria passando por uma reestruturação para melhorar sua saúde financeira, o que não foi confirmado nem negado pela empresa. De setembro do ano passado até a primeira semana deste mês, de acordo com o Sindicato dos Trabalhadores na Alimentação de São Paulo, a J. Macêdo demitiu 40 funcionários em sua três unidades no Estado. A companhia também não comentou as demissões apontadas.

Com as operações de farinhas industriais (com as marcas Soberana, Jangada e Tropical que pertenciam à J. Macêdo) e pré-misturas (com a marca Bentamix, adquirida após a parceria), a Bunge, com faturamento em torno de R$ 1,5 bilhão no segmento de trigo no Brasil, se beneficia da originação do cereal.

Com forte presença nos mercados argentino e brasileiro, e com os acordos de troca de insumos com os produtores, a Bunge tem mais mobilidade para adquirir matéria-prima, armazenar e negociar no mercado, de acordo com especialistas no mercado.

O grupo J. Macêdo, que assumiu as linhas de massas da Bunge (marcas Petybon, Boa Sorte, Familiar, Madremassa, Favorita e Paraíba), as farinhas domésticas (marcas Sol, Boa Sorte, Lili e Veneranda) e as misturas de sobremesa (marca Sol), estaria, ainda conforme as fontes em processo de expansão neste segmento.

"O mercado se surpreendeu com o acordo entre as duas empresas, mas percebeu que a Bunge tem melhores condições de se beneficiar da parceira, uma vez que tem uma estrutura maior e relação mais estreita com os produtores de trigo brasileiros e argentinos", afirmou uma das fontes ouvidas pelo Valor.

Depois do acordo de 2003, a J. Macêdo passou ter uma atuação mais efetiva na região Centro-Sul do país. Antes, os negócios da empresa brasileira com sede no Ceará estavam muito concentrados na região Nordeste. Com faturamento em torno de R$ 1,1 bilhão em 2004, a J. Macêdo conta com seis unidades processadoras de trigo no país.

Também após o acordo de 2003, a Bunge reduziu o número de unidades processadoras de trigo de dez para oito. Foram fechadas as fábricas de Ilhéus e Salvador, na Bahia, uma vez que esta competiam diretamente com as unidades da J. Macêdo.