Melancia forrageira alimenta rebanho
De polpa branca e com baixo teor de sacarose, espécie de origem africana serve de alternativa
CRISTINA LAURA
Uma tem casca verde, polpa vermelha e é doce. A outra possui casca dura, é resistente aos impactos e à deterioração, a polpa é branca e apresenta baixo teor de sacarose, o que a torna sem sabor. A primeira é vendida em supermercados, feiras e está na mesa do consumidor. A segunda está em baias para alimentar a criação do semi-árido baiano. Estamos falando da melancia, fruta bastante conhecida do brasileiro que aparece como forrageira própria para a nutrição de animais em períodos de seca.
De origem africana, a espécie é, segundo pesquisadores da Embrapa Semi-Árido de Petrolina (PE), um recurso alimentar essencial à criação pecuária na região.
Um dos pontos mais favoráveis é que o fruto da melancia forrageira se conserva por mais de um ano sem que haja perda nas propriedades nutricionais. O mais impressionante, de acordo com o pesquisador Francisco Pinheiro Lima Neto, está no fato de que “a conservação pode ser obtida com a manutenção do fruto amadurecido no próprio campo onde foi cultivado e sob o sol escaldante das áreas secas do Nordeste, sem necessidade de práticas sofisticadas de armazenamento”.
E ainda se ganha em volume, pois no sertão, em apenas um hectare, a depender da quantidade e da distribuição de chuvas, a produção pode chegar a 25 ou 30 toneladas do fruto. Mas existe o risco de perda total provocada por fungos e bactérias que penetram no fruto junto com a água através de furos feitos por lagartas, caso as chuvas do período sejam fortes.
O pesquisador informa que uma medida para evitar a perda da produção dessa forma é revirar as melancias nos locais onde o fruto fica na terra, conhecido como “cama”, pelo menos uma vez no período de conservação.
A grande quantidade de água dessa espécie do fruto, cerca de 90%, é uma característica comemorada pelos beneficiados. Entre 1990 e 1994, anos de seca forte na região, a disponibilidade da melancia forrageira garantiu aos criadores a alimentação para manter os seus rebanhos sem precisar vender animais a preços baixos ou gastar muito dinheiro para transferi-los para outras pastagens.
Outro ponto positivo, segundo os pesquisadores, é que a melancia forrageira ajuda no ganho de peso e na produção de leite. A pesquisa aponta que um grupo de novilhos pastejando exclusivamente de capim buffel durante 90 dias no período seco ganha 26,5 kg, enquanto outro grupo que tem um acréscimo em 25 kg de melancia forrageira engorda 33 kg. Nas vacas leiteiras de agricultores familiares, cada animal produz em média de 5 a 7 litros de leite por dia quando se acrescenta 30 kg a 40 kg da melancia em sua dieta.
Pesquisadores buscam melhoramento genético
As vantagens de produção e utilização da melancia forrageira como alimento dos animais anima criadores e faz com que os pesquisadores busquem o melhoramento genético da melancia forrageira que é cultivada no Campo Experimental de Caatinga da Embrapa Semi-Árido.
Na busca pelo aumento na produtividade da cultura, os pesquisadores estão avaliando o desempenho de cem frutos de plantas diferentes quanto ao comprimento, largura, espessura da casca e caracteres associados à qualidade.
A composição química geral dos frutos da melancia forrageira, segundo o pesquisador Francisco Pinheiro Lima Neto, pode ser considerada adequada, uma vez que os teores de proteína bruta e de minerais se assemelham aos níveis mínimos constituintes da matéria seca das plantas forrageiras e exigidas pelos animais. “Alguns elementos, como potássio e cobre, são encontrados em proporções muito superiores e, além disso, esta espécie de melancia manifesta resistência ao oídio e tolerância a vírus causadores de doenças que, comumente, provocam danos à melancia tradicional, o que proporciona redução de gastos no manejo do cultivo”, destaca.