Cana velha salva mercado de álcool

09/03/2006

Cana velha salva mercado de álcool

Lavoura que sobrou da safra passada está sendo colhida agora, para garantir abastecimento

Moacyr Castro

A antecipação da safra de cana-de-açúcar para 1º de março - a primeira moagem começou oficialmente na Quarta-Feira de Cinzas, na Destilaria Cocamar, em São Tomé (PR) -, apesar de viável, não significa nenhuma mágica em termos agronômicos. A cana que está permitindo essa "antecipação" de safra, conforme explica o pesquisador Marcos Landell, coordenador do Centro de Cana do Instituto Agronômico (IAC), não é cana nova. É a cana "bisada", que sobrou do ano passado, pois, com o excesso de chuvas no fim de novembro e dezembro, não compensou insistir no corte e a lavoura ficou no campo.

E não é pouca cana. São mais ou menos de 8 milhões a 10 milhões de toneladas no Centro-Sul do País - no mínimo 3 milhões de toneladas só na região de Ribeirão Preto, o maior pólo canavieiro do Brasil, avalia o presidente da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canaoeste) e da Organização dos Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana), Manoel Ortolan.

Como comparação, 10 milhões de toneladas de cana rendem cerca de 1 bilhão de litros de álcool, suficientes para atender ao consumo da frota movida a álcool, de carros flex e à mistura de álcool à gasolina por um mês.

DESEMPENHO RUIM

Economicamente, porém, a cana bisada compromete o desempenho da usina, porque ela deveria ter sido moída na safra anterior, alerta o usineiro Jairo Balbo, produtor de álcool em Sertãozinho (SP) e conselheiro-administrativo do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), de Piracicaba (SP).

E explica: "De um ano para o outro, a cana bisada passou pelas chuvas de verão, mas não parou de crescer. Por isso, o corte, manual ou com máquina, também é mais difícil. Além disso, a cana vai levar mais terra para a usina. O teor de sacarose é um pouco maior, mas não compensa, porque a qualidade do açúcar não será boa. É uma cana destinada a virar exclusivamente álcool."

Ainda não há nenhuma variedade de cana-de-açúcar cultivada em larga escala e que permita a antecipação da colheita em um mês. Em anos em que o abastecimento de álcool no País não sofre pressão, como está sofrendo agora, e os estoques do combustível estão em níveis aceitáveis, a safra tem data certa para começar: no início de abril, ou seja, um mês depois da virtual safra atual, e se estende até novembro.

Virtual porque, conforme reforça Landell, "não há variedade precoce, capaz de sustentar uma antecipação de safra, muito menos cana que produza o ano inteiro", diz ele, que continua: "Em cana, não há salvação da lavoura; não há o 'Pelé' dos canaviais."

RESISTENTES À SECA

Segundo Landell, "até as canas transgênicas estão sendo desenvolvidas principalmente para resistir mais à seca, problema climático comum nas regiões para onde os canaviais estão se expandindo, como no noroeste paulista e no Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso do Sul, e não para produzir o ano todo".

Assim, até que o grosso da safra nova comece a entrar, o abastecimento de álcool terá de ser garantido, em sua maioria, pela cana bisada. Com a safra nova, o problema de falta de álcool combustível deve ser eliminado. Se se confirmarem as previsões do setor sucroalcooleiro, a safra 2006 deve ser a maior do País, com 415 milhões de toneladas de cana, 7,5% a mais do que na safra anterior.