Algodão definha em SP e no PR

20/03/2006

Algodão definha em SP e no PR

Mônica Scaramuzzo

 

O produtor Ronaldo Spirlandelli de Oliveira não planta algodão nas terras que possui em São Paulo há duas safras. Como a maioria dos antigos cotonicultores do Estado, migrou para cana-de-açúcar e soja. Apesar de ser apenas mais um a seguir um caminho já trilhado por muitos, o caso de Oliveira é emblemático. Trata-se, afinal, do atual presidente da Associação Paulista dos Produtores de Algodão (Appa).

Por motivos óbvios, ele deixará a presidência da Appa ainda neste ano. Para sucedê-lo, a escolha natural seria Tadashi Mine, tradicional produtor de algodão e vice-presidente da Appa. O problema é que, segundo Oliveira, seu vice também está pensando em deixar o produto de lado para investir em cana.

A perda de mais dois importantes cotonicultores não surpreende, mas reforça o fato de que em São Paulo a competitividade do algodão minguou ainda mais com a recente virada, para pior, do mercado internacional. Ao lado do Paraná, o Estado liderou a produção da cultura no país na década de 1980. Em São Paulo, a área chegou a 380 mil hectares. Nesta safra (2005/06), são 40,7 mil.

No Paraná, a situação é mais ou menos a mesma. A área está diminuindo aos poucos e hoje é de 16,9 mil hectares, ante os 445 mil do ciclo 1985/86, quando liderava a produção nacional, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Os grandes produtores do Sul e Sudeste migraram nos anos 1990 para o Centro-Oeste.

Com um dos maiores custos de produção por hectare mesmo com vento a favor - cerca de US$ 1.300, três vezes maior que o da soja -, o algodão tornou-se caro e arriscado para os pequenos agricultores, predominantes em São Paulo e Paraná. "O algodão resistiu ao avanço da cana até o início da década. Mas, conforme a crise se abate sobre o setor, os produtores vão migrando de cultura", disse Spirlandelli.

E ele mesmo serve como exemplo do golpe sobre a cultura no Estado. Cotonicultor desde 1999 em São Paulo, ele migrou para cana e soja e só voltará se os preços realmente forem muito remuneradores. Atualmente, dos 1,2 mil hectares que possui em São Paulo, 800 hectares estão ocupados com cana - ele é fornecedor de usinas próximas à região de Ituverava -, e outros 400 hectares estão com soja.

No Paraná, o declínio do algodão está mais evidente. Os produtores começaram a abandonar a cultura nos últimos anos por conta do clima e dos altos custos de produção, segundo Otmar Hubner, agrônomo do Departamento de Economia Rural (Deral), ligado à Secretaria de Agricultura do Estado. Segundo Hubner, não há uma política paranaense específica de estímulo ao plantio de algodão.

Em São Paulo, os incentivos são praticamente nulos. Duarte Nogueira, secretário de Agricultura do Estado, disse que o governo tem se esforçado para evitar que haja uma concentração de culturas no Estado - maior produtor de cana e laranja. Mas reconheceu que o dólar desvalorizado não oferece estímulos ao produtor de algodão.

Os poucos cotonicultores paulistas que restam reclamam da falta de uma política de incentivos fiscais para o algodão, como ocorre em Mato Grosso, Minas e Goiás.

Mato Grosso tornou-se na última década o maior produtor do país. Grandes agricultores paulistas, como a família Maeda, migraram para o Centro-Oeste estimulados pelos incentivos fiscais e custos baratos. Nos últimos três anos, Goiás e oeste da Bahia também expandiram as áreas com algodão.

"São Paulo não preza muito pela qualidade do algodão, com exceção de poucos produtores", disse Spirlandelli. A produtividade média por hectare no Estado está hoje em 2,4 mil quilos. Mato Grosso fica em torno de 3,6 mil hectares. "Os produtores paulistas e paranaenses não têm perfil exportador e não trabalham com contratos futuros", afirmou. "Tínhamos orgulho por São Paulo ser diversificado na agricultura, mas cana está engolindo o algodão".