Preço do frango sobe com menor produção
MAURO ZAFALON
O corte na produção do setor avícola começa a refletir nos preços do frango. O setor já está com corte próximo de 20% no alojamento de pintos e o quilo da ave viva é negociado a R$ 1,05 nas granjas paulistas. Esse é o quarto aumento no mês e o frango vivo acumula alta de 50% em abril.
Em outras épocas, esse aumento seria um alívio para o setor, mas na situação atual a alta nem repõe os custos de produção. Para cada R$ 1,05 por quilo que o setor recebe atualmente pelo frango vivo, gasta pelo menos R$ 1,20 para a produção, segundo cálculos de proprietários de granjas.
Para ao menos repor os custos de produção, o preço da ave viva deveria subir ainda 15%. Érico Pozzer, presidente da APA (Associação Paulista de Avicultura), diz que os preços vão continuar subindo e podem até voltar ao pico de R$ 1,60 registrado em setembro do ano passado. "Esse mercado é muito sensível."
Pozzer diz, no entanto, que essas oscilações bruscas de preços não são boas nem para os produtores nem para os consumidores.
O presidente da APA espera que o consumidor e os institutos de pesquisa de preços se lembrem de que o R$ 0,99 pago pelo quilo há algumas semanas nos supermercados era um preço completamente irreal e só ocorreu devido ao excesso de oferta.
De "salvador" a "vilão"
Ao retornar aos valores normais de R$ 2,30 a R$ 2,50 por quilo nos supermercados, o frango pode passar de "salvador" -porque esteve a R$ 0,99- a "vilão", segundo Pozzer. "Isso tudo confunde o consumidor", acrescenta ele.
A queda brusca de preços ocorreu por culpa do próprio setor, que produzia 10% a mais do que a demanda, segundo o presidente da APA. Com o ajuste atual da produção, "os preços devem voltar ao normal e, se tudo correr bem, o setor vai sair do vermelho". Essa saída do vermelho, no entanto, só deve ocorrer no ano que vem, na avaliação dele.
Para Pozzer, a reposição de preços é essencial para o setor. Caso contrário, todas as pequenas e médias empresas vão sair do setor. Se isso ocorrer, o consumidor deve pagar "caro" mais tarde com a concentração do setor.
José Carlos Teixeira, analista do setor avícola, também prevê a recuperação dos preços. "Só não sei precisar quando", afirma. Segundo ele, o quadro de oferta de frango a partir de agora vai ser bem diferente do de há alguns meses.
No início do alastramento da gripe aviária por vários países, os exportadores brasileiros tinham estoques para 60 dias e o mercado externo para outros 30. A redução da demanda externa forçou a colocação desse produto no mercado interno, derrubando os preços.
Cortes
O setor de avicultura fechou o ano passado com o alojamento mensal de 414 milhões de pintos. E iniciou este ano com 408 milhões. Em março, o alojamento já era de apenas 345 milhões, 15,4% a menos do que em janeiro.
Para este mês, a previsão é de 330 milhões. Se esse número for confirmado, a redução já será de 19% no ano, afirma Pozzer, margem próxima da previsão de 20% a 25% estipulada pelo setor.
Esses novos números de alojamento já começam a refletir nos preços da ave viva nas granjas, melhorando os valores recebidos pelos produtores -que chegaram a receber apenas R$ 0,70 por quilo no mês passado.
"Ainda é difícil, no entanto, uma análise do mercado externo, que continua sob o efeito do impacto da gripe aviária", diz Teixeira. O europeu, por exemplo, é muito exigente e tem mais alternativas de consumo, diz ele.
Já para Pozzer, "a poeira está baixando no mercado externo e se não ocorrer nenhum fato novo, o consumo volta a melhorar". Na média, segundo ele, a queda de consumo na Europa é de 10% a 15% atualmente. Há três meses, essa queda chegava a 70%, diz o presidente da APA.
Teixeira diz que os números da exportação brasileira refletem essa queda de consumo.
Em fevereiro de 2005, os brasileiros colocaram 216 mil toneladas de carne de frango no mercado externo. No mesmo mês deste ano, as exportações recuaram para 199 mil toneladas.