Protestos afetam exportações de soja

08/05/2006

Protestos afetam exportações de soja


 

A crise de rentabilidade no segmento da soja - carro-chefe do agronegócio nacional - deve se estender pelo menos até a safra 2006/07. Analistas prevêem uma queda de pelo menos 10% na área plantada no país no próximo ciclo, por conta do cenário de elevado endividamento e da tendência de queda de preços no mercado internacional. Indústrias instaladas no país reclamam que já enfrentam dificuldades para exportar grãos devido às diversas manifestações realizadas por agricultores para reter a soja nos Estados de origem da produção.

"Não estamos conseguindo escoar os grãos para o porto porque os produtores do Centro-Oeste estão barrando os caminhões nas estradas", confirmou Stephen Geld, diretor de processamento de soja da ADM Brasil, multinacional americana que em 2005 processou no Brasil 6,3 milhões de toneladas de soja e exportou cerca de 3,6 milhões.

A Caramuru Alimentos, que processa em torno de 885 mil toneladas de grãos por ano, também enfrenta problemas, segundo Cesar Borges de Sousa, vice-presidente da empresa. "Já sabemos que receberemos menos soja este ano. Não tenho um número fechado, mas certamente será menor que o de 2005", afirmou.

Levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) ainda aponta alta das exportações brasileiras de soja em grão de fevereiro de 2006 a janeiro de 2007 - 25,2 milhões de toneladas, ante 22,389 milhões de fevereiro do ano passado a janeiro último. Para farelo e óleo, as previsões são de queda. A Abiove prevê produção de 56,4 milhões de toneladas de soja na safra atual. No total, o IBGE prevê a colheita de 121,723 milhões de toneladas de grãos neste ano, ante 112,774 milhões em 2005.

André Pessoa, analista da Agroconsult, é um dos muitos que acreditam que a crise atual ainda pode se aprofundar. Ele estima para a próxima safra de soja uma redução de área de 3 milhões de hectares, e queda na produção próxima a 10% - para volume inferior a 50 milhões de toneladas. "No Mato Grosso, que responde por um terço da produção, a queda será superior a 20%", disse.

Pessoa observou que, além dos problemas internos, no exterior o excesso de oferta e a tendência de queda nos preços desestimulam a aposta na soja. Ele lembra que hoje a relação estoque-consumo está em 28%, o maior nível da história - o recorde era 26%, em 1969. Geld observa que a expansão da demanda global por soja requererá, nos próximos dois anos, um aumento na área plantada de 10 milhões de hectares. "Hoje o único país com essa disponibilidade é o Brasil, mas a conjuntura interna não permite", disse.(CB)