Custos vão cair na próxima safra de grãos

09/05/2006

Custos vão cair na próxima safra de grãos

Mauro Zanatta


A crise de renda e liquidez no segmento de grãos nas últimas duas safras terá pelo menos um reflexo positivo no futuro: os custos de produção das lavouras no próximo ciclo (2006/2007), que começa em julho, serão os mais baixos desde o início do "boom" vivido no campo há três safras.

Estudo inédito da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostra que o movimento reflete a redução média de 20% nos preços dos insumos provocada pela retração na demanda e a valorização do real frente ao dólar. O analista do mercado de insumos da Conab, Asdrúbal Jacobina, afirma que a crise do campo baixará os preços das despesas de custeio em itens como fertilizantes, defensivos, sementes e operações com máquinas agrícolas. E ajudará a recompor parte das margens de lucro perdidas em dois anos de crise e a impedir uma retração forte na área plantada com grãos.

Os cálculos da Conab mostram que os custos voltarão a níveis históricos na próxima safra. "Os preços caíram de forma generalizada porque a taxa de câmbio fez cair os preços de fertilizantes, e os produtores simplesmente deixaram de comprar bens agrícolas", diz Jacobina. O preço de uma colheitadeira de algodão, por exemplo, caiu de R$ 950 mil para R$ 720 mil. "E não há compradores".

Segundo ele, cederão ainda as despesas de pós-colheita com transporte, limpeza, armazenagem e assistência técnica. "Isso será fundamental para manter o ânimo dos produtores. Faz parte de um ajuste circunstancial em função da valorização do real e da recomposição das margens", diz o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Ivan Wedekin. Numa hipótese mais pessimista, segundo a Conab, o plantio pode cair entre 2 milhões e 3 milhões de hectares.

A Conab aponta que a soja, que responde por 45% da produção nacional de grãos, terá um custo médio 11% inferior à atual safra (2005/2006). O custo médio para produzir um hectare de soja em Mato Grosso cairá de R$ 1,46 mil para R$ 1,31 mil. Pela projeção, o custo da saca cairá de R$ 29,17 para R$ 26,32. Hoje, o preço médio da soja em Mato Grosso está abaixo de R$ 20. No algodão, a redução média será mais significativa: 19%, de R$ 4,55 mil para R$ 3,83 mil por hectare. Os custos também serão 9,5% menores no milho, 6% no arroz e 16,7% no trigo.

Desde o boom dos preços, as relações de troca ficaram irreais, a liquidez evaporou e a renda desabou. De lá pra cá, os custos explodiram. Um exemplo: em 2002, eram necessárias 17,6 sacas de soja para comprar uma tonelada de fertilizante. Em setembro de 2005, a relação subiu para 27,3 sacas.

Por outro lado, alguns analistas acreditam que o refresco na redução dos custos não será suficiente para abrandar a crise. "A queda dos preços é muito maior do que a redução nos custos", diz o economista Fábio Silveira, da RC Consultores. "É um copinho d'água para atravessar o deserto do Saara", resume. Segundo seus cálculos, o preço da soja na próxima safra tende a ficar 5% a 6% abaixo da atual temporada. Houve uma queda de 25% em dólar em dois anos. E perdeu-se 30% pelo câmbio nesse tempo. "O preço da soja em reais é 50% menor", diz Silveira.

Para ele, o maior problema é o endividamento. "Com a baixa rentabilidade da soja, as dívidas em Mato Grosso, por exemplo, seguirão do mesmo tamanho, próximas de R$ 6 bilhões". Segundo ele, a receita da soja no Estado será de R$ 7 bilhões, empatando com o custo total. "Vamos terminar 2007 do mesmo jeito que começamos. Muita gente não vai plantar. Não me surpreenderia se a produção de soja caísse 20%".

O diretor de Economia Agrícola do ministério, Edilson Guimarães, alerta para os riscos de voltar aos tempos de inadimplência. "O custo vai cair por força do câmbio. Isso ajuda muito, mas o problema vai ser dinheiro para plantar, tanto de recursos próprios como de crédito em bancos e multinacionais", diz.

Wedekin pondera que a crise não se instalou em todo o "continente agrícola". Segundo ele, "o aperto está nas áreas de fronteira agrícola, sobretudo as mais recentes".