Kirchner exporta inflação do pãozinho para o Brasil
Menor oferta de trigo argentino poderá elevar os preços do produto importado
MAURO ZAFALON
O preço do trigo vem subindo no mercado externo e pressionando os preços também no mercado argentino, grande exportador do produto. Para evitar a alta interna dos preços, o governo Kirchner, após ameaçar a proibição das exportações, fez o setor se comprometer a fazer uma auto-regulação.
Essa auto-regulação significa que deve ser garantida maior oferta de trigo e de farinha no mercado interno e redução do produto a ser exportado. Com isso, a oferta de trigo da Argentina pode diminuir e pressionar os preços, já que os argentinos são grande fornecedores do mercado interno. Sem o produto do vizinho, o Brasil deverá buscar outros mercados, onde a tonelada de trigo chega a valer 60% mais do que na Argentina.
Os preços internos da farinha devem disparar e podem subir de 30% a 40% na avaliação das indústrias brasileiras. Se isso ocorrer, as pressões inflacionárias sobre o pãozinho na Argentina seriam transferidas para o Brasil. Para evitar esse aumento, o setor propõe ao governo várias medidas de apoio, entre elas a redução de 10% para zero da taxa da TEC (Tarifa Externa Comum) e o fim dos 25% da tarifa cobrada sobre o transporte.
Para inibir ainda mais as exportações, o governo argentino elevou a base de cálculo do valor da pauta de exportação de US$ 156 por tonelada para US$ 182. Ou seja, a taxa de 20% de imposto, que era cobrada sobre US$ 156 por tonelada, passa a incidir sobre US$ 182. Esse aumento para o exportador será repassado para o importador.
Contrabando
Além desse problema pontual, a indústria brasileira de moagem convive há dois anos com o aumento das exportações de "pré-mistura" de farinha de trigo da Argentina.
Os argentinos pagam 20% de taxa nas exportações do trigo em grão e 20% na farinha, conforme acordo do Mercosul. Para estimular as exportações do produto industrializado, a Argentina reduziu a alíquota para 5% para o que eles chamam de "pré-mistura" de farinha. Essa mistura é, na verdade, uma exportação subsidiada e disfarçada de farinha de trigo, segundo a indústria brasileira.
Outro fator que distorce o comércio entre os dois países é a informalidade, que atinge pelo menos 40% das indústrias do país vizinho. Com isso, cresce o contrabando, e a farinha argentina chega ao Brasil subfaturada e com custos menores do que os de produção na Argentina, segundo Samuel Hosken, diretor-presidente da Abitrigo (Associação Brasileira da Indústrias de Trigo).
Abaixo do custo
A informalidade no país vizinho e os subsídios dados pelo governo à "pré-mistura" de farinha fazem com que o produto chegue ao Brasil com preços até 15% inferiores aos do custo de produção na Argentina, na avaliação da indústria brasileira.
Para comprovar a gravidade da situação, Hosken mostra os custos de importação. O subfaturamento e o contrabando já atingem níveis tão elevados que tanto a tonelada de trigo bruto como a tonelada de farinha são colocadas no mercado brasileiro por R$ 410, inibindo a produção nacional.
Para Hosken, "houve uma quebra de confiança entre os dois mercados e ficou claro que o Brasil não pode ficar mais dependente do argentino". Para buscar abastecimento em outros mercados, que têm preços maiores, o setor quer montar um consórcio de importações.
Esse consórcio "baratearia" os preços, já que a quantidade negociada seria maior, e permitira também a presença de pequenos importadores. Os novos exportadores para o Brasil seriam Canadá, Estados Unidos, Polônia, Ucrânia e Rússia.