Um arroz da realeza para o Mercosul
O príncipe reinante de um micropaís de 34 mil habitantes espremido entre a Suíça e a Áustria, herdeiro de uma das maiores fortunas do planeta, começa a vender no Mercosul um produto inusitado para um monarca: uma variedade de arroz híbrido capaz de multiplicar a produtividade por hectare.
O príncipe em questão é Alois von und zu Liechtenstein, de 37 anos, que divide seu tempo entre o comando do principado de Liechtenstein e a administração de uma fortuna familiar estimada em US$ 4 bilhões. "Após anos de testes, vemos muito potencial na comercialização de nosso arroz híbrido no Brasil, Argentina e Uruguai", disse ele ao Valor em seu inexpugnável castelo no alto de um despenhadeiro com ampla vista sobre o país.
Com 160 quilômetros quadrados e dois terços da população composta por estrangeiros, Liechtenstein faz parte das Nações Unidas, da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Conselho da Europa. A capital, Vaduz, pouco maior que um vilarejo, fica a uma hora e meia de Zurique (Suíça). Pode-se atravessar de carro o país em 30 minutos Até os anos 1920, era um pedaço de terra que vivia miseravelmente da agricultura. O caminho da fortuna foi a criação de um centro financeiro especializado no sistema de "caixa postal". Aqui, uma empresa ou família se registra como fundação ou trust e paga 0,1% de imposto por ano, fugindo do fisco de seu país de origem.
Os principais prédios de Liechtenstein são os de 15 bancos. O maior é o
Já a família Liechtenstein, uma das mais antigas da nobreza européia, é rica há séculos. A coleção de arte do príncipe Hans-Adam II, pai de Alois e chefe de Estado, é a segunda maior e mais valiosa do mundo, depois da coleção da rainha da Inglaterra. As terras que o príncipe possui no exterior - no Texas (EUA), na República Checa e na Áustria - são maiores que o principado.
O príncipe herdeiro Alois vem gradualmente substituindo o pai no comando do país e nos negócios. O banco da família, por exemplo, representa riqueza de pelo menos US$ 2 bilhões - os ativos da clientela, por sua vez, chegam a US$ 35 bilhões. "Meu pai costuma dizer que trabalhamos duro de manhã para sermos príncipes à tarde", conta, rindo.
Investimento em agricultura é uma tradição familiar. Os estudo genético de uma nova semente de arroz durou 15 anos e contou com ajuda de cientista chinês. A
Os genes que controlam a esterilidade foram encontrados em espécies de arroz, e por isso a tecnologia não é considerada transgênica. Nos EUA, além das sementes, a companhia comercializa o próprio arroz, com tipos aromáticos, basmati (indiano), risoto etc.
A RiceTec do Brasil, sediada em Porto Alegre, é chefiada pelo suíço Markus Ritter. A empresa comercializa o arroz híbrido por R$ 500 por hectare, bem mais caro que a semente comum. Mas Ritter diz que o beneficio liquido ao produtor é significativo. Ele acena com um potencial de rendimento de até 13 mil quilos por hectare, ante os 5,5 mil do arroz irrigado no Rio Grande do Sul e os 3,5 mil da média brasileira.
No Brasil, a empreitada está na terceira safra, e o equivalente a 5 mil hectares já foram comercializados. Mas agora o objetivo é dobrar a área semeada para 12 mil hectares para depois duplicá-la ano após ano. Até agora, o faturamento no país é limitado a cerca de R$ 5 milhões. O mercado de sementes de arroz no Mercosul tem baixo valor, porque grande parte das sementes são de baixa tecnologia e muitos arrozeiros guardam o grão na própria fazenda. Nesse cenário, a RiceTec espera abocanhar de 10% a 20% da área cultivada de arroz irrigado no Mercosul, estimada em 1,45 milhões de hectares.
A empresa quer aumentar sua presença no Mato Grosso do Sul, Tocantis e Roraima. O príncipe Alois não esconde o interesse pelo Brasil. Para comprovar o que diz, conta que seu banco investe em ações brasileiras e não teme a volatilidade que tem ocorrido nos últimos tempos.