Êxodo nordestino continua

19/06/2006

Êxodo nordestino continua

MARIZA LOUVEN

 

 

A indústria de açúcar e de álcool calcula que irá faturar R$ 49 bilhões nesta safra, 38% a mais do que na anterior. O novo boom da cana-de-açúcar, combinado à falta de alternativas de trabalho e renda em cidades do Nordeste e da região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais – uma das mais pobres do País –, vem provocando o êxodo maciço de trabalhadores em direção a Estados mais ricos como Rio, São Paulo eMato Grosso, para onde a indústria sucro-alcooleira está se expandindo.

“A grande disponibilidade de mão-de-obra jovem, combinada com a forte demanda das usinas, engrossa as correntes migratórias para o centro-sul e o Centro-Oeste”, afirma o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Roberto Novais. Não há dados precisos do número de migrantes empregados no setor, onde predomina a informalidade.

CONTRATAÇÕES – Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho e Emprego (Caged), houve 251,2 mil contratações formais para o trabalho no cultivo da cana, usinas de açúcar e produção de álcool nos primeiros quatro meses deste ano – 22,4% mais que no mesmo período de 2005.

Já a União da Agroindústria Canavieira (Unica) estima em um milhão o número de empregos diretos nesta safra. “Acompanho a migração há mais de 20 anos e estou vendo sobrar gente”, relata irmã Inês, da Pastoral do Migrante de Guariba, que abrange 85 municípios de São Paulo. A Usina Bonfim recusou 90 pessoas depois de constatar contaminação pelo barbeiro, transmissor do mal de Chagas.

Mesmo em São Paulo, onde a mecanização já é responsável por 40% da colheita, o contingente de cortadores manuais cresceu 16% e chegou a 70 mil, 46% do total, segundo o diretor Técnico da Unica, Antonio de Pádua Rodrigues. O chefe da Área de Fiscalização da Delegacia Regional do Trabalho do Rio (DRT-RJ), Guilherme Moreira, também estima que 25% dos cerca de quatro mil trabalhadores na lavoura do estado vieram de fora.

“Só a Usina Santa Cruz, de Campos dos Goytacazes, tem 700 migrantes.

A Cupim tem mais 400 e deve chegar a 500 este mês. Na Santa Cruz, os migrantes são 80% da força de corte”, informa o gerente Agrícola Augusto de Vasconcelos.

A empresa dobrou o número de funcionários em três anos. Hoje emprega 1,4 mil pessoas, mas ainda está precisando de 200 funcionár ios.

BAIANO – “Lá em Iaçu não tem serviço.

Por isso a gente tem que agüentar”, disse o baiano Jeonice dos Santos Ivo, de 21 anos, depois de um dia de trabalho em que cortou 250 metros de cana (seis toneladas), a R$ 0,14 o metro, para ganhar R$ 35. Eles aceitam o trabalho porque no local de onde vêm a diária é de R$ 5 a R$ 10, sem a bóia, lembra o professor da Universidade Federal de São Carlos Francisco Alves.

O setor vem sendo impulsionado pelo consumo interno de álcool e pelas exportações deste produto e do açúcar, cujos preços estão em alta no mercado internacional. Há mais 29 usinas operando ou entrando em operação nesta safra, segundo a Unica. E a área plantada de cana deve chegar a 6,7 milhões de hectares, prevê a Agroconsult.