Oferta, câmbio e embargo derrubam carnes
Produção elevada, real valorizado e restrições ao país por questões sanitárias afetam negativamente os preços das carnes no mercado brasileiro desde o fim de 2005. Para os cortes bovinos e para o frango no atacado o pior momento foi no primeiro trimestre deste ano, mas para a carne suína a situação segue se deteriorando. Na opinião de analistas, os embargos impostos às carnes bovina e suína do Brasil após o ressurgimento da aftosa em outubro do ano passado e a queda da demanda por frango em países importadores por causa da gripe aviária apenas agravaram um quadro de grande produção, esta, por sua vez, estimulada pela perspectiva de ampliação das exportações.
Como resultado desse cenário, os preços da carne suína no atacado despencaram desde outubro de 2005. A carcaça saiu de R$ 3,69 o quilo naquele mês para R$ 2,18 em junho passado, apurou a
O embargo de 59 países ao Brasil por causa da febre aftosa não chegou a afetar os embarques de carne bovina - até maio as vendas cresceram 1,37%, para 935.627 na comparação com igual período de 2005. Mas a verdade é que os volumes poderiam ter sido superiores não fossem as restrições ao país. "Se não tivesse ocorrido a aftosa, o país exportaria mais", diz Fabiano Tito Rosa, da
"O setor [de carnes] vive um ciclo de alta da produção estimulado por um período de câmbio competitivo (entre a segunda metade de 2004 e primeira de 2005) e pelos bons resultados nas exportações", observa Paulo Molinari, analista da Safras, para explicar a queda dos preços.
Ele acrescenta que o câmbio atual reduz a margem dos exportadores de carnes por isso, em determinados casos, é melhor destinar o produto ao mercado doméstico. Acontece que "a demanda interna não absorve o volume", pondera Molinari, lembrando que 2006 é um ano eleitoral, quando se espera um fluxo de demanda positivo em setores como alimentos.
O economista Fábio Silveira, da
Ele observa que os embarques de carne bovina se mantiveram estáveis, apesar do câmbio e dos embargos, porque existe demanda internacional - principalmente européia -, o que até sustenta as cotações na exportação.
Mesma sorte não teve a carne suína. Os preços de venda no exterior subiram de forma expressiva, mas não por efeito da demanda aquecida e sim por restrição da oferta. Aliás nesse caso é que houve o maior impacto do embargo. O motivo é que o principal cliente do Brasil, a Rússia, bloqueou a carne dos oito Estados do país após a descoberta da aftosa no Mato Grosso do Sul e no Paraná (reabriu apenas para o Rio Grande do Sul até agora). Como reflexo, os embarques brasileiros de carne suína recuaram 25,47% até maio ante igual período de 2005 , para 174,7 mil toneladas. "No suíno, a situação é um pouco diferente porque o Brasil depende muito das exportações para a Rússia", afirma Molinari.
Mas, segundo o analista, a crise de oferta no mercado de frango existiria independentemente da queda da demanda por causa da gripe aviária em países importadores. "A queda na demanda por frango não causaria uma crise dessas", diz. Dentro do próprio setor produtivo, há quem admita que a doença foi usada como uma "desculpa" para explicar o excedente de frango no mercado.
O que ocorreu, novamente, foi que a produção excedeu a demanda. "O setor planejou determinada exportação que não está se concretizando", avalia Oto Xavier, da
José Vicente Ferraz, do
Mas Xavier, da Jox, lembra que a concorrência com a carne de frango também ajuda a pressionar a carne bovina no mercado doméstico. Em sua opinião, o poder aquisitivo ainda "é problema" por isso o consumidor tende a optar pela carne mais barata, caso do frango em relação às outras carnes.