Clima nos EUA guia cotações dos grãos (Valor Econômico)

01/08/2006

Clima nos EUA guia cotações dos grãos

 

Os efeitos climáticos sobre a produção americana de grãos nesta safra 2006/07 e os movimentos de fundos de investimentos e especuladores guiaram as cotações de soja, milho e trigo na bolsa de Chicago em julho. Dos três, o trigo foi o que apresentou a reação mais relevante à conjunção. Segundo cálculos do Valor Data baseados no preço médio mensal dos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) das principais commodities agrícolas transacionadas no exterior, no mês passado o trigo registrou a maior alta em Chicago (4,79%) e a segunda maior quando incluídos os itens da bolsa de Nova York, onde o cacau subiu 5,55%.

Vinicius Ito, analista da Fimat Futures, explicou que o trigo mostrou-se particularmente suscetível às oscilações do clima nos EUA porque a área plantada naquele país já não é tão grande e o déficit hídrico nesta fase de desenvolvimento das plantações é grande em algumas regiões, como Kansas. Relatório de ontem do departamento de agricultura do país (USDA) mostra que apenas 32% das lavouras de inverno estão em boas ou excelentes condições, ante 68% na mesma época de 2005. Na Austrália, outro importante exportador, o clima também está adverso. Assim, em média os contratos de segunda posição alcançaram US$ 4,1015 em julho, 4,79% mais que em junho. "A alta pode inclusive levar ao avanço do trigo em áreas de algodão nos EUA", afirmou Ito.

Da mesma forma, as cotações do milho foram impulsionadas pela estiagem americana e seus reflexos no norte e no oeste do chamado "corn belt". Em média, os contratos de segunda posição de entrega subiram 3,19% na comparação com junho e alcançaram US$ 2,5761 por bushel E a tendência deve perdurar em agosto. "Os atuais mapas meteorológicos indicam poucas chuvas e temperaturas elevadas para essas mesmas regiões, e no momento esse comportamento afeta mais as lavouras de milho que as de soja", disse Paulo Molinari, analista da Safras&Mercado.

Por isso mesmo a soja subiu apenas 0,2% - para US$ 5,9723 - na comparação entre julho e junho na mesma bolsa de Chicago, conforme o Valor Data. Segundo Antonio Sartori, da corretora Brasoja, as indicações de hoje são de manutenção dos níveis de produtividade americana e elevação de estoques, o que tende a manter o mercado sob pressão até as primeiras confirmações de forte retração de área plantada em regiões produtoras do Brasil no próximo ciclo. "Em agosto, ainda teremos influência do clima nos EUA, mais forte até do que em julho. Também é possível perceber uma influência cada vez maior da energia no mercado de soja. É só uma questão de tempo para nos perguntarmos se o grão é alimento ou fonte energética".

Ao contrário da normalidade sinalizada para a soja, o relatório do USDA sobre as condições das lavouras americanas de algodão mostrou que 39% delas estão em boas ou excelentes condições, ante 61% na mesma fase de desenvolvimento da safra 2005/06. Apesar disso, o preço médio do produto alcançou 53,55 centavos de dólar por libra-peso em julho em Nova York, 1,73% a menos que no mês anterior. Para Emerson Wohlenberg, da Agra FNP, a queda foi determinada por especulação e reflexos do clima adverso em áreas dos EUA poderão prevalecer em agosto. Outro fator que poderá favorecer as cotações em agosto foi o fim, ontem, do programa "Step 2" de subsídios às exportações americanas, na esteira de decisão da Organização Mundial de Comércio (OMC) após disputa aberta pelo Brasil.

O clima, só que desta vez no Brasil, também influenciou as cotações do café na bolsa nova-iorquina, onde houve grande volatilidade em julho por conta do crescente peso dos fundos de investimentos e especuladores no mercado. No fim, a cotação média subiu 1,53% em relação a junho e alcançou US$ 1,0024 por libra-peso. "Com a colheita no Brasil, maior produtor e exportador mundial, o quadro não aponta para reações significativas das cotações até outubro. No longo prazo, porém, as perspectivas são positivas para os preços, por causa da queda dos estoques no país nos últimos anos", afirmou Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes.

Já o suco de laranja voltou a subir em Nova York em julho, ainda sustentado pela magra oferta global após os danos provocados por duas temporadas de furacões aos pomares da fruta na Flórida, que reúne o segundo maior parque citrícola do mundo, atrás de São Paulo. Em média, os contratos de segunda posição de entrega da commodity alcançaram US$ 1,6335 por libra-peso no mês passado, 2,87% acima do patamar de julho. Não há no horizonte riscos de retração.

O açúcar, por sua vez, ampliou os ganhos e o preço médio dos contratos futuros atingiram 16,24 centavos de dólar por libra-peso, 3,53% mais que no mês anterior. Michael McDougall, da Fimat, disse que em julho houve grande volatilidade e que cresceu a pressão causada pelo bom rendimento da cana brasileira e pelas projeções de aumento da produção russa, maior importador do mundo. Mas os estoques apertados em países consumidores e a febre global em torno do etanol como fonte de energia ajudam a manter as cotações no maior nível desde 1990.

No caso do cacau, finalmente, a forte valorização de 5,55% registrada em julho, motivada por surtos compradores especulativos verificados na primeira metade do mês, perdeu força na segunda quinzena e o mercado já está de volta ao patamar anterior à disparada em Nova York, de acordo com Thomas Hartmann, da TH Consultoria.

Fernando Lopes