O Ministério do Trabalho, por meio da Subdelegacia do Trabalho de Barreiras resgatou 30 trabalhadores, dos quais oito crianças e adolescentes, da Fazenda Triângulo, município de Riachão das Neves, a 140 km de Barreiras e a 912 km de Salvador, no oeste baiano.
Os homens foram contratados para a recata do milho e, apesar de estarem há dois meses trabalhando, não receberam nenhum pagamento.
A propriedade pertence ao fazendeiro Bertolino Ribeiro do Prado Filho, residente no Paraná, segundo o fiscal do Trabalho Edvaldo Rocha Santos.
Todos os trabalhadores foram arregimentados no dia 7 de junho no município de Luís Eduardo Magalhães, por meio de um “gato” (nome dado ao encarregado de selecionar o pessoal e fazer a “ponte” entre os trabalhadores e empregadores) com a promessa de que teriam estadia, comida e que receberiam R$ 1 em cada saca de milho.
Entretanto, segundo os trabalhadores, depois que chegaram na fazenda foram jogados debaixo de uma árvore, onde passaram a primeira noite ao relento, com crianças de até 2 anos de idade.
No dia seguinte, os homens construíram as barracas, todas de pedaços de lona velha que eles encontraram sob a terra. “A gente não podia ficar sem um abrigo com tantas crianças no meio do mato”, justificou Bertulinia Alves dos Santos, 31 anos, mãe de seis filhos. Ela acrescenta que o pior de tudo eram os bichos e que perdeu a conta de quantas cobras e outros bichos peçonhentos foram encontrados dentro das barracas e até em cima dos colchões.
Odite da Silva Souza, 49 anos, que estava na fazenda trabalhando junto com dois filhos de 10 e 18 anos, reclamou que só a água era gratuita (que chegou a faltar) “a comida e todo o resto era anotado para descontar depois”, assinala.
Mesmo assim, os trabalhadores alegam que ficaram sem comida e tiveram que comer milho seco cozido “Que era só o que a gente tinha na roça”, disse a mulher.
CRUELDADE – “As condições eram cruéis” asseverou Luiz Fernandes, 37 anos, que afirmou nunca ter trabalhado em um lugar tão adverso. “A gente tinha vontade de ir embora, mas não podia sair, porque ainda não tinha recebido o dinheiro”, afirmou, destacando que passou fome e frio.
Segundo o fiscal do Trabalho, Edvaldo dos Santos, as condições de sobrevivência e a situação de devedores caracteriza a situação como trabalho escravo. A soma das rescisões chegou a R$ 50 mil. Todos os 30 trabalhadores, inclusive as crianças que estavam trabalhando na cata do milho, vão receber o seguro desemprego e serão incluídos no Programa Bolsa Família.
A Organização Internacional de Trabalho (OIT) considera que toda a forma de trabalho escravo é trabalho degradante, mas o recíproco nem sempre é verdadeiro. De acordo com Patrícia Audi, coordenadora do Projeto de Combate ao Trabalho Escravo da OIT no Brasil, o que diferencia um conceito do outro é a liberdade. "Quando falamos de trabalho escravo, falamos de um crime que cerceia a liberdade. Essa falta de liberdade se dá por meio de quatro fatores: apreensão de documentos, presença de guardas armados e “gatos” de comportamento ameaçador, por dívidas ilegalmente impostas ou pelas características geográficas do local, que impedem a fuga".
O OUTRO LADO – O proprietário da fazenda, Bertolino Ribeiro do Prado Filho, que mora em Maringá, no Paraná, não foi localizado pela equipe de reportagem.
Trabalhadores eram mantidos como escravos (A Tarde)
02/08/2006
Trabalhadores eram mantidos como escravos
MIRIAM HERMES