De produtor a empresário rural

03/08/2006

De produtor a empresário rural

Agricultores aprendem técnicas de gestão para tornar propriedades rentáveis e competitivas

Há até quatro anos, o pecuarista de corte Carlos Alberto Vendramini trabalhava, numa área de pastagem de 310 hectares em Marília (SP), com cria, recria e engorda de gado. Mantinha 300 vacas para parir os bezerros, 200 novilhas e apenas 300 bois para abate. Seu rendimento vinha da venda dos bezerros para terceiros e dos bois para o frigorífico. “O custo de manutenção das vacas era muito alto para uma área tão pequena, ainda mais no Estado de São Paulo, onde a terra é caríssima”, conta o pecuarista.

Após fazer um curso para gerir melhor a propriedade, do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-SP), continuou na atividade pecuária, mas a reformulou. “Ficamos só com a engorda”, conta Vendramini, que tem certeza de que se insistisse nas três fases estaria tendo prejuízo. Agora, no espaço que antes era ocupado pelas vacas, novilhas, bezerros e animais de corte, mantém 800 cabeças de gado, só para corte. “E consigo lucro de 10%, mesmo com o preço da arroba lá embaixo”, garante.

MODIFICAÇÕES
A família Scalabrin, de Realeza, no sudoeste do Paraná, também repensou os investimentos na propriedade rural, assim como na maneira de administrá-la, após participar de um programa de empreendedorismo rural, do Sebrae-PR, em parceria com a Federação de Agricultura do Paraná (Faep) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-PR).

“Nós já tínhamos uma propriedade diversificada, por pura necessidade, pois a área é muito pequena, de 11 hectares”, diz Izabel Scalabrin, filha de Cleonice Caldato Scalabrin e de Rodolfo Scalabrin, donos do sítio. “Produzimos vassoura artesanal, leite, frutas, doces, pães, bolachas, açúcar mascavo e mel”, descreve Izabel. Agora, após participar do programa, montaram um projeto e que promete ser a principal fonte de renda da família, daqui a dois anos: a produção e comercialização de orquídeas.

“Minha mãe sempre cultivou e foi apaixonada por orquídeas”, diz Izabel. “Decidimos profissionalizar esta paixão”, continua. No projeto, feito no âmbito do curso de empreendedor, Cleonice analisou, de maneira extremamente profissional, todos os prós e contras de montar um orquidário na região, com estudo de viabilidade de mercado, de fornecedores, de tecnologia, etc. E tocou adiante o projeto, obtendo financiamento para montar o orquidário e fazer, ela e a filha, Izabel, um curso sobre clonagem de orquídeas em laboratório, na Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR).

Num espaço de apenas 80 metros quadrados, já estão abrigadas 300 mudas clonadas, que alcançam valor entre 50% e 60% maior no mercado do que mudas comuns, segundo Izabel. “Foi uma maneira de centrar esforços em algo mais rentável”, anima-se a produtora, que conta também que, após o curso, seus pais aprenderam a fazer uma contabilidade mais apurada dos negócios da propriedade. “Tínhamos a noção mental de que a propriedade dava lucro. Agora, temos certeza.”

MUDANÇA DE ATITUDE
Sejam eles agricultores familiares ou não, é cada vez maior a necessidade de os produtores profissionalizarem a gestão de seu negócio. “O agricultor produz muito bem, com tecnologia, mas nem sempre gerencia a propriedade como uma empresa, e principalmente traça estratégias para o futuro”, diz o assessor da Presidência da Federação da Agricultura do Paraná (Faep) Carlos Augusto Albuquerque, que trabalha, em parceria com o Senar-PR, na montagem de cursos de capacitação voltados à agricultura.

A visão administrativa e global de Vendramini e da família Scalabrin ainda não é, porém, predominante entre os proprietários rurais. A principal falha, segundo Albuquerque, é o produtor não fazer controle de custos. “Muitos nem calculam quanto a sua atividade rende na área disponível”, diz. “Por isso o curso mais importante que ministramos é o de administração rural”, continua. “Este é o primeiro curso, antes de todos, que o produtor deve fazer.”

Para o pecuarista Vendramini, a definição de como gerir a propriedade de maneira mais rentável foi inspirada nos cursos que fez. “Mudei minha atitude perante o negócio”, conta. “O produtor olha muito a fazenda pro lado de dentro, fica agarrado à tradição familiar, batendo cabeça em atividades que não são rentáveis, e esquece de olhar a cadeia como um todo e o que o mercado realmente está querendo”, continua. “E esta visão global reverteu em mais lucro para a propriedade”, afirma o pecuarista.

Tânia Rabello