Caatinga é estudada para criação de parque nacional
Uma área de 823 mil hectares envolvendo os municípios de Sento Sé, Sobradinho, Umburanas, Campo Formoso e parte de Juazeiro está em estudo pela Coordenação Geral de Criação de Unidades de Conservação e Regularização Fundiária, vinculada à Diretoria de Ecossistemas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), para criação do Parque Nacional Boqueirão da Onça. Do total da área prevista, 60% ficam em Sento Sé, a 689 quilômetros de Salvador.
O secretário de Meio Ambiente de Sento Sé, Laurenço Aguiar do Nascimento, acha interessante a criação do parque, mas lembra que “é importante garantir a melhoria de vida das pessoas que vivem nos povoados que estão localizados na área em estudo”.
Ele ressalta que muito da degradação ambiental se dá por falta de uma política ambiental adequada ser trabalhada com cerca de 700 famílias espalhadas numa área de 490,2 mil hectares. “A nossa preocupação é com a possível saída da população de suas moradias. Devese pensar em requalificação para que o povo não fique sem ter de onde retirar o sustento da família”, observou o secretário.
E foi exatamente a população dos povoados o ponto de partida do trabalho de levantamento de dados socioambientais realizado em julho pela equipe do Ibama composta por socióloga, engenheiro florestal, engenheiro civil e veterinário. Eles foram a mais de 80 povoados dos cinco municípios.
Segundo o engenheiro florestal da Diretoria de Desenvolvimento Socioambiental do Ibama, Gustavo Henrique de Oliveira, a maior preocupação das comunidades está em não ter participação no processo de criação da unidade de conservação. Para garantir a participação das comunidades, serão realizadas reuniões públicas.
FAUNA E FLORA – A presença de onças-pardas e pintadas na região de Sento Sé deu origem ao nome do parque que está sendo proposto.
Os felinos são motivo de temor dos habitantes locais que têm criações em fundos de pasto. Contam que, no meio da noite, as cabras, ovelhas e bezerros são os alvos preferidos das onças que descem da serra em busca de alimento. Fazem isso porque já não encontram bichos como catitus, tatus e outros animais, que estão sumindo devido à ação dos caçadores.
A pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa SemiAacute;rido), de Petrolina (PE), Lúcia Kill, chama atenção para a presença de espécies da fauna nas áreas observadas.
“São apontados grupos de insetos e de aves como os mais abundantes, sendo que a grande maioria da fauna é constituída de mamíferos que se alimentam de insetos e vermes, de grãos ou de sementes, de frutos ou vegetais e os predadores em menor escala”.
Foi destacada a presença de papagaioverdadeiro, de seriema e de acauã. Há alguns anos, ainda era possível encontrar a ararinhaazul, recentemente considerada extinta. Kill afirma que a área serve de refúgio para espécies de mamíferos como a suçuarana, gatodo-mato, caititu, cutia, mocó, tamanduá-mirim, tatu-peba, entre outros. A Caatinga possui áreas de transição, típicas do Cerrado, e, em áreas mais elevadas, possui um conjunto de montanhas íngremes com picos de até 800 metros, formando cânions cercados de vales cortados por uma rede de riachos temporários, informou Lúcia.
Segundo ela, cerca de 120 espécies de 91 gêneros e 42 famílias botânicas foram catalogadas, dentre as quais espécies ameaçadas de extinção, como aroeira, baraúna, quixabeira, umburana-de-cheiro e jurema-branca. A área também tem pinturas rupestres nos cânions, indicando a presença do homem em épocas muito remotas, com estilo diferente de outros sítios arqueológicos do Nordeste.
ÁREAS PROTEGIDAS– Segundo a coordenadora do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Caatinga na Bahia, Sonia Portugal, “é bastante louvável a iniciativa de criar unidades de conservação em área do bioma Caatinga ”. Ela, que é técnica do Centro de Recursos Ambientais, cita entre as áreas de Caatinga protegidas por lei no estado, as áreas de proteção ambiental (Apa) de Serra Branca, Raso da Catarina, Dunas e Vereda do BaixoMédio São Francisco, Gruta dos Brejões Vereda do Romão Gramacho, Marimbus-Iraquara, Serra do Barbado , Lago Pedra do Cavalo, Lagoa de Itaparica, os parques estaduais de Morro do Chapéu, das Sete Passagens, e de Canudos, o Monumento Natural Cachoeira do Ferro Doido e as áreas de relevante interesse nas nascentes do Rio de Contas e na Serra do Orobó.
Tem também a Reserva Biológica de Maracás, o Parque Municipal Serra do Periperi e a Reserva Biológica e Arqueológica da Serra do Mulato. Na área federal, o Parque Nacional da Chapada Diamantina, a Reserva Ecológica do Raso da Catarina e a Floresta Nacional Contendas do Sincorá.
CRISTINA LAURA