Produtores baianos já irrigação noturna (A Tarde)

19/09/2006

Produtores baianos já irrigação noturna

 

Enquanto agricultores e empregados dormem, máquinas automatizadas e programadas trabalham na irrigação.
Mais exatamente na irrigação noturna, em que o preço da energia elétrica é mais baixo: o desconto na tarifa pode chegar a 90% em correntes de alta tensão, diz a Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba).
Para usar esse serviço, o produtor deve aderir, por contrato, à tarifação reduzida, no horário das 21h30 às 6 horas, informa a empresa, acrescentando que 7.814 já utilizam a irrigação noturna – cerca de um terço dos irrigantes na Bahia, nos cálculos da Secretaria da Agricultura do Estado.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), reguladora do serviço em nível nacional, estimula os irrigantes a utilizarem o período da noite, justificando que é quando ocorre um baixo consumo em toda a rede. Os empresários da região oeste da Bahia já utilizam bastante, segundo o diretor de Meio Ambiente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), José Cisino Menezes Lopes.
“Os produtores aproveitam o horário mais barato e há períodos no meio da noite em que chega a ocorrer picos no consumo”, disse o diretor da Aiba, calculando que, em uma área de 80 mil hectares, cerca de 150 produtores irrigam culturas de frutas, café e algodão. O pivô central predomina nas lavouras, molhando culturas de frutas e algodão – automatizadas, essas máquinas têm horário programado para ligar e desligar.
O agricultor que não dispuser de recursos financeiro e tecnológico para implantar a irrigação noturna automática pode recorrer ao planejamento dos turnos e áreas de rega, orienta o professor Delly Oliveira Filho, professor da Universidade Federal de Viçosa. “Em lavouras com turno de rega de oito horas, por exemplo, o produtor escolhe a área, liga a irrigação à noite e, pela manhã, desliga o equipamento”, detalha o professor.
Embora aponte esta alternativa, Delly Oliveira Filho destaca que a irrigação noturna é a mais recomendada para quem pode automatizar o sistema.
O professor, que desenvolve uma pesquisa na área de desempenho das máquinas, adverte o produtor para a necessidade de modificar seus equipamentos, citando o aumento da potência ou até mesmo a compra de maquinário mais adequado.
Também recomenda estudos sobre as necessidades de irrigação da propriedade, do investimento inicial a ser feito e custo operacional da irrigação noturna.
Na visão do coordenador da área de hidráulica e irrigação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no município de Ilha Solteira, Fernando Tangerino, a irrigação feita à noite é “ecologicamente correta”, por favorecer um melhor aproveitamento da água. “À noite, há menos vento circulando e, assim, menos água da irrigação é dispersa para lugares fora da área de irrigação. Além disso, a evaporação é reduzida à noite”, acrescenta o professor na universidade paulista.
Vital Pedro da Silva Paz, do Núcleo de Engenharia de Água e Solo, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, no campus de Cruz das Almas, acrescenta que, em lavouras irrigadas por equipamentos mecanizados, a opção pela rega à noite dá mais tempo ao agricultor para trabalhar em outros setores da produção.
Segundo ele, a Bahia é umdos Estados que mais crescem em áreas irrigadas no País e que novos estudos serão iniciados com a criação do programa de pós-graduação em Engenharia de Água e Solo na universidade.
“Vamos iniciar discussões, segundafeira, dia 25, às 8 horas, no campus de Cruz das Almas”, informou.
O encontro vai discutir áreas temáticas, linhas de pesquisa, parcerias e apoios institucionais, com participação dos professores Hans Raj, da Universidade Federal de Campina Grande (PB), e Marcos Flegatti, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade Estadual de São Paulo.
GRUPOS – Para implantar a irrigação noturna em sua propriedade, o agricultor deve se dirigir a um escritório da Coelba e solicitar a concessão do benefício. Em seguida, um medidor eletrônico será instalado na rede elétrica, na propriedade, com custos para o consumidor, para indicar horário e quantidade de energia.
Custos com outras mudanças na propriedade também ficam a cargo do cliente, de acordo com Umberto Maiato, gestor do Grupo A e Poderes Públicos da Coelba. Segundo informações da assessoria de comunicação da Coelba, a empresa mantém uma equipe preparada para orientar os agricultores e interessados.
O desconto é dado para uso da energia exclusivamente no horário entre 21h30 e 6 horas e o irrigante se compromete a evitar a utilização da energia no horário de maior pico – entre 17 horas e o início da tarifação diferenciada.
Pela tabela da Coelba, os consumidores de alta tensão que optam pela tarifa noturna chegam a pagar apenas 10% da tarifa praticada durante o dia. Os de baixa tensão têm desconto de 73%, ou seja, pagam 27% da tarifa vigente pela manhã, tarde e início da noite. “A energia elétrica utilizada fora do horário do benefício tarifário é fornecida com base na tarifa rural vigente do respectivo grupo tarifário”, explica Umberto Maiato.
Na Bahia, os 7.814 clientes que usufruem do benefício se dividem em dois grupos principais: os de alta tensão (Grupo A), que consomem maior quantidade de energia e possuem transformador próprio, e os de baixa tensão (Grupo B), que utilizam o transformador da linha pública e consomem menos.
No total, são 815 clientes do Grupo A, concentrados nas regiões de Barreiras, Juazeiro, Ibotirama e Bom Jesus da Lapa, e a maioria (6.999 clientes) do Grupo B, espalhada por todo o Estado. Pela lei, a propriedade a ser beneficiada com o desconto deve estar localizada em área rural e destinada à irrigação ou aqüicultura (criação de algas, moluscos, crustáceos, peixes e outros para alimentação humana e industrialização).
Unidades consumidoras com fornecimento de energia destinado à criação, recriação ou engorda de animais também podem usufruir do benefício, além de cooperativas de eletrificação rural e serviços públicos de irr igação.
A Coelba esclarece que a unidade que não atende ao percentual mínimo do total da carga instalada destinado à atividade de irrigação ou aqüicultura também pode usufruir do benefício tarifário, desde que instale uma medição específica para as cargas de irrigação ou aqüicultura, mediante um novo contrato e outra medição para as demais cargas.

 

JAIR FERNANDES DE MELO