Sinais de alento para o campo no ano que vem
Depois de dois anos seguidos de turbulências, a agricultura brasileira começa a vislumbrar com mais segurança os primeiros sinais de uma possível virada. E o principal deles é o fim do descompasso cambial entre o momento da compra de insumos para o plantio e a venda dos grãos, provocado pela apreciação do real em relação ao dólar. Para alguns analistas, os preços dos insumos baixaram, o orçamento para a nova safra (2006/07) está positivo e espera-se melhores preços no mercado internacional.
O cenário foi discutido ontem em Curitiba em fórum organizado pela consultoria Tendências e pela seguradora Aliança do Brasil. Na abertura do evento, a economista Amaryllis Romano, responsável pela área de análise do setor de agronegócios da consultoria, apresentou um cenário otimista, em parte por conta do aumento da demanda por biodiesel, e disse que "a crise está ficando para trás". Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, afirmou no fórum que as eleições não devem atrapalhar a economia, que os preços das commodities permanecem em patamares elevados e que há pouco risco de aumento dos juros internacionais. Ele acrescentou que o Brasil caminha para sua menor taxa de juro real e motivou um desanimado suspiro em parte da platéia ao exibir projeção de dólar a R$ 2,15 em 2007 - ainda desfavorável às exportações, segundo os produtores.
Já Gilberto Zancope, presidente da Montana, fabricante paranaense de implementos agrícolas, comentou que as informações confirmam o que ele vê no mercado. "2007 ainda será duro, mas o pior já passou". Ele contou que a empresa tinha 600 empregados em janeiro de 2005 e reduziu o quadro pela metade até junho de 2006. Agora voltou a contratar 30 pessoas, e ampliou a meta de faturamento em R$ 30 milhões. "Faturamos R$ 180 milhões em 2004, R$ 80 milhões no ano passado e devemos chegar a R$ 70 milhões em 2006". No primeiro semestre, as vendas mensais da Montana somavam R$ 3 milhões, valor que saltou para R$ 12 milhões em setembro e que Zancope espera manter até o fim do ano. Sua principal concorrente, a paulista Jacto, maior fabricante de pulverizadores do país, ainda não quer comemorar, mas informou que também percebeu reação na demanda e voltou a contratar - a empresa havia demitido mil pessoas.
Sem medo de parecer otimista, o presidente da Cooperativa Agropecuária de Cascavel (Coopavel), Dilvo Grolli, sugeriu que não deve ser deixado "um palmo de terra sem plantar, porque haverá lucratividade". Segundo ele, o prejuízo do produtor de soja foi resultado de um custo de produção de R$ 28 por saca - levando-se em conta a baixa produtividade devido à estiagem - e de um preço de venda de R$ 24. Pelos cálculos atuais, decartando-se quebras, o custo de produção seria de R$ 16. E Grolli espera melhores preços no segundo semestre do ano que vem.
Outro assunto tratado foi a vinculação da concessão de financiamento agrícola ao uso de seguro rural, que vale a partir de hoje. O diretor de agronegócios do Banco do Brasil, Derci Alcântara, explicou que se trata de um projeto piloto que será aprimorado. No Paraná, em cerca de 80% dos municípios as taxas serão menores que 4,5% do valor financiado e metade dessa porcentagem será bancada pelo governo federal.
Marli Lima