Diversificação no cerrado (A Tarde)

26/09/2006

Diversificação no cerrado

 

Consolidada como fronteira agrícola do País na produção de grãos, a região oeste da Bahia investe na diversificação de culturas, implantando campos experimentais de cana-de-açúcar.
Com aval da Fundação Bahia e da Associação dos Agricultores Irrigantes da Bahia (Aiba), o plantio experimental começou há um ano, em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC).
No município de Luís Eduardo Magalhães, são cultivados 63 clones, de 15 variedades comerciais, em uma área de 11 hectares irrigados, dos quais quatro são área experimental e sete para a multiplicação de mudas a serem distribuídas com os empresários que bancam os experimentos.
Os resultados estão animando os pesquisadores, que colheram 153 toneladas por hectare irrigado e 122 toneladas por hectare de sequeiro – a média nacional é de 80 toneladas por hectare. Os clones e variedades comerciais plantados na região ainda não foram lançados no mercado brasileiro e estão se adaptando ao cerrado baiano.
Diz o vice-presidente da Aiba, Sérgio Pitt, que o cultivo da canade-açúcar em áreas do cerrado vai permitir uma diversificação maior da matriz produtiva e possibilitar a auto-suficiência da Bahia na produção de açúcar e álcool.
“A Bahia importa 85% do que consome desses produtos”, afirma dida pela ATR (Açúcar Total Recuperado).
A média em São Paulo é em torno de 120 a 130 ATR e na região do cerrado baiano foi medida entre 140 a 150 ATR. “Isso é conseqüência da luminosidade e significa que teremos entre 10% e 20% mais álcool que outras regiões”, diz Mário Meirelles.
Outro aspecto apontado favorável à cana-de-açúcar é o reduzido consumo de água na irrigação, pois, segundo as pesquisas, a mesma quantidade de água que irriga 100 hectares de outras culturas vai irrigar 400 hectares de cana.
PREÇO DO ÁLCOOL – A região oeste da Bahia é abastecida de álcool por duas regiões de acordo com Meirelles. “Um período do ano somos supridos pelo Sudeste (safra de abril a novembro) e no outro período o álcool vem do Nordeste (safra de dezembro a abril)”, afirma ele, dizendo que o custo de produção de um litro de álcool em São Paulo é de R$ 0,90.
Meirelles enfatiza a diferença de preços entre São Paulo e o oeste baiano. “Lá, nas bombas, o álcool é vendido a R$ 1,30, enquanto aqui na região o litro do álcool é vendido a R$ 2,30. A diferença que se paga é o frete e com o álcool produzido aqui teremos a vantagem de comprar o álcool a um preço mais acessível”, afirma animado.
Quanto às indústrias, ele informa que uma fábrica pequena já está sendo instalada no distrito de Roda Velha (município de São Desidério) que deve estar em funcionamento até final de 2007.
Pitt, acrescentando que a meta dos produtores da região é tornar a Bahia o maior fornecedor de álcool e açúcar das regiões Norte e Nordeste do País.
MERCADO DA CANA – Animado com os resultados, o coordenador do projeto cana-de-açúcar da Fundação Bahia, engenheiro agrônomo Mário Meirelles, argumenta que a intenção é livrar a região do dilema da monocultura. “Nos tempos de crise, como temos na soja nosso carro-chefe, todos ficamos nas mãos das multinacionais, diretamente ligados ao mercado de exportação e, isso, queremos evitar com a cana-de-açúcar”, disse.
Se a cultura da cana é promessa de melhores tempos para os empresários rurais, também é de empregos.
A estimativa dos pesquisadores é que para uma área de 200 mil a 300 mil hectares sejam gerados entre 50 mil e 60 mil empregos diretos no campo.
Na comparação com a soja, principal cultura da região, a conclusão é que a cana gera 15 vezes mais empregos, apesar da utilização de máquinas colheitadeiras.
Mas não é só no campo que aparecem os empregos.
Também nas usinas que devem ser instaladas. “Uma usina de 10 mil hectares de cana (um módulo), só na área industrial, deve gerar entre 600 a 700 empregos”, afirma Meirelles, lembrando que para cada hectare de soja são gerados em torno de quatro empregos.
Mas não é só mão-de-obra farta na região que atrai os empresários.
Também a topografia plana (apta para máquinas colheitadeiras de grande porte), a terra fértil, a abundância de água para irrigação e a luminosidade seduzem os novos investidores. A luminosidade é fator preponderante para a formação do açúcar na cana, não mais comercializada em tonelada.

MIRIAM HERMES