Fungo negro é ameaça ao caranguejo no verão
A onda de mortandade de caranguejosuçá deverá passar novamente pela Bahia no verão de 2007, conforme a previsão feita ontem pelo oceanólogo, Walter Boeger, coordenador da pesquisa sobre a mortandade dos crustáceos nos estuários de Sergipe. Os resultados dos estudos, contratados pelo governo sergipano e iniciados em 2004, foram apresentados, ontem, no anfiteatro do Hotel Parque dos Coqueiros e apontaram o fungo negro como a causa da doença do caranguejo letárgico.
Segundo Boeger, a Bahia, que teve os primeiros casos registrados em 2001, ainda está “no meio da onda” que teve sua origem em Recife (PE) em 1997, quando foram registrados os primeiros casos. A doença se propagou pelos Estados nordestinos matando grande quantidade de animais.
Em Caravelas, a mortandade afetou perto de 85% da população do crustáceo, afirmou Boeger. Os animais afetados têm seus órgãos e tecidos destruídos pelo fungo.
Quando não morrem no ambiente, morrem ao serem capturados pelo efeito do estresse sobre o animal já debilitado, explicou o pesquisador Antonio Ostrensky, do Grupo Integrado de Aqüicultura eEstudos Ambientais da Universidade Federal do Paraná.
“Os fatos não deixam a menor dúvida de que o fungo é o causador da doença”, disse o pesquisador.
Segundo ele, tudo indica que se trata de uma espécie nativa de fungo que se dispersou seguindo o mesmo padrão da corrente marítima que percorre a costa brasileira de Norte a Sul. Os casos mais recentes da doença foram registrados neste ano, em Vitória (ES).
CAMARÕES – O engenheiro de pesca e gerente executivo do programa estruturante do aqüinegócio do governo de Sergipe, Marcelo Chammas, destacou o avanço da pesquisa no conhecimento do fungo, que após ser analisado na Holanda, pelo especialista Sybren de Hoog foi identificado no gênero Exophiala, sendo a espécie Exophiala cf psycrophila, a associada à doença.
Além de identificar o fungo, a pesquisa também desenvolveu uma técnica de marcação genética que permite detectar o microorganismo em qualquer concentração e emqualquer tipo de material da natureza. Essa técnica, segundo Chammas foi o que permitiu descartar a relação entre a ocorrência da mortandade com a criação de camarão em cativeiro.
“Fizemos análises em todos os seis estuários do Estado e nenhumresultado foi positivo”, disse ele. A secretária de Meio Ambiente, Socorro Cacho, também se referiu ao assunto, destacando, logo no início da sua fala, que os estudos atestam “a desoneração da carcinicultura” no caso da mortandade.
Já entre os catadores de caranguejos do município de Santa Luzia, a tese da culpa da carcinicultura ainda pesa. “Escutei ela dizer que não foi os viveiros (de camarão), mas tem que fazer exame na água dos viveiros, quando são esvaziados no mangue”, disse Antonio José dos Santos, 32 anos. “Para mim é a lavagem dos viveiros e os produtos que eles usam que dá nisso”, considerou Augusto de Jesus Souza, 60 anos.
Quem também contestou os resultados foi o biólogo e ex-secretário estadual de Meio Ambiente, Zilton Rodrigues. “Eles não responderam ainda qual o impacto do manejo dos viveiros sobre o mangue.
A porta aberta para o fungo pode estar aí”, disse Rodrigues.
Segundo o coordenador da pesquisa Walter Boeger, não há como combater o fungo. A aplicação de produtos químicos como fungicidas pode ser muito mais prejudicial para o ambiente, afirmou. Para Chammas, as pesquisas vão continuar.
"Ainda é preciso verificar se há algum efeito da doença entre os catadores e entre os consumidores do caranguejo", diz, ressaltando que o governo tomará medidas de proteção da população de caranguejos que resistiram à doença.
MAIZA DE ANDRADE