Carne brasileira ainda enfrenta restrição externa
Após um ano de negociações e investimentos desde a descoberta da existência de febre aftosa em rebanhos do Mato Grosso do Sul e do Paraná, governo federal e setor privado garantem que mercados como a União Européia e a Rússia estão usando o episódio como barreira protecionista. Antigos clientes, que desde o fim do ano passado embargaram as compras, utilizam a questão sanitária como desculpa para dificultar o ingresso do produto brasileiro e evitar a concorrência.
Segundo o ministro da Agricultura, Luiz Carlos Guedes Pinto, a UE faz exigências maiores do que as estabelecidas pela própria Organização Mundial de Saúde Animal (OIE, sigla em inglês). Já a Rússia mantém um embargo amplo, porque estaria preocupada em atender seus produtores de suínos, que reclamam do baixo preço da carne brasileira. “A própria OIE reconhece que o Brasil atende às exigências fitossanitárias. Mas há países, como os da União Européia, que vão muito além dos rigores”, disse o ministro.
No caso da Rússia, inicialmente o embargo foi em decorrência da febre aftosa, mas o país liberou posteriormente as importações de outros Estados brasileiros e manteve a restrição a Mato Grosso, São Paulo e Paraná. No entanto, a Rússia se recusa a comprar carne suína de Santa Catarina, Estado livre da doença, que, além de tudo, não atinge os suínos. O prejuízo pode ser significativo, uma vez que os russos absorviam dois terços das vendas de carne suína do Brasil para o exterior. “O que tenho ouvido de algumas autoridades da Rússia é que a carne suína brasileira estava chegando ao mercado russo a preços muito baixos e isso estava afetando a produção doméstica”, disse Guedes.
ABUSO – Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carnes (Abiec), Marcus Vinícius Pratini de Moraes, está claro o uso abusivo de normas sanitárias. Pratini acredita que, com a paralisação das negociações da Rodada de Doha, na OrganizaçãoMundial do Comércio (OMC), não há perspectivas de mudança a curto prazo.
Apesar do embargo, as exportações brasileiras de carnes continuam batendo recordes. Em agosto, o total vendido no exterior foi de US$ 403 milhões, batendo a marca de julho (US$ 355 milhões). O setor espera atingir, no final deste ano, US$ 4 bilhões, o mais alto valor da história. A razão para isso é que o Brasil está driblando o protecionismo, direcionando suas exportações a países emergentes, como Egito, Bulgária, Filipinas e Argélia.
“Isso compensa parcialmente o embargo, que nos custou, em 2005, cerca de US$ 400 milhões”, disse Pratini.
A contrário do que ocorreu em 2005, quando houve atrasos na liberação de verbas para o Ministério da Agricultura, Guedes garante que os recursos para combate a doenças este ano são suficientes. A área de defesa sanitária conta com, pelo menos, R$ 160 milhões. Ele lembrou, no entanto, que o governo federal repassa os recursos para os Estados, responsáveis pela execução dos programas.
ELIANE OLIVEIRA