Plano de integração entre BM&F e bolsa de Rosario na reta final
Após quase três anos de negociações, Brasil e Argentina estão finalmente próximos de criar seu próprio mercado futuro de soja e, em um prazo não muito longo, conquistar uma maior independência em relação à bolsa de Chicago na formação de preços do produto localmente.
A primeira etapa de um projeto conjunto de integração das bolsas de Mercadorias & de Futuros (BM&F), de São Paulo, e Mercado a Termo de Rosario (Rofex), deve entrar em operação até o início do ano que vem, conforme garantiram ontem seus presidentes - Manoel Felix Cintra Neto e Luis A. Herrera, respectivamente.
Nesta primeira fase, os sistemas de ambas as bolsas estarão integrados, o que permitirá a operação dos agentes de mercado nos dois países. A segunda fase é a implantação de um sistema único, como explicou José Alberto Podesta, diretor de relações institucionais da Rofex. Por último, as duas bolsas pretendem partir para a integração com a bolsa de futuros de Dalian, na China.
O encontro com a bolsa de Dalian é a meta final da integração BM&F-Rosario, porque aproximaria Brasil e Argentina - respectivamente o segundo e o terceiro maiores produtores de soja do mundo - da China, que é a maior importadora do produto.
"Queremos criar um contrato de soja da América do Sul visando os chineses, que estão comprando muita soja na Argentina e no Brasil", afirma Cintra Neto. Cidade que fica a mais de mil quilômetros de distância de Pequim, Dalian sedia o segundo maior contrato futuros de soja do mundo, depois do de Chicago. São mais de 300 mil contratos por dia, em unidades de 10 toneladas, em um processo totalmente eletrônico.
Os contratos BM&F-Rofex serão unificados, com entrega no porto de Paranaguá (PR). Cintra Neto acredita que, ao criar as condições para uma liquidez cada vez maior, em um ano será possível dobrar o volume negociado hoje nas duas bolsas, de 20 milhões para cerca de 40 milhões de toneladas.
Consolidado o contrato de soja, a intenção é integrar também os contratos futuros de trigo e farelo de soja, diz o presidente da BM&F. "Unir em uma única plataforma a participação dos dois países [Brasil e Argentina] é a única possibilidade de competir com o mercado de Chicago que tem enorme liquidez e que é formador do preço da soja a nível internacional", disse Herrera.
De acordo com o presidente da Rofex, o problema de referenciar a soja sul-americana em Chicago é que esta praça reflete não apenas o mercado internacional do produto mas também as condições internas dos Estados Unidos, onde a safra acontece na entressafra do Cone Sul e está sujeita a fatores que nem sempre têm à ver com a realidade da produção sul americana ou chinesa.
"Em Chicago, os preços são formados por um mercado que está em oposição ao nosso. Com a integração das bolsas, os preços vão refletir mais claramente a realidade da produção brasileira e argentina", diz Podesta.
A China produz pouco mais de 15 milhões de toneladas de soja anualmente e importa entre 20 a 25 milhões para suprir sua demanda interna - das quais 10 milhões são compradas no Mercosul. O interesse chinês na integração é, segundo Podesta, ter uma referência mais precisa de seus riscos junto aos fornecedores de metade de suas importações.
A Província de Rosário abriga um dos maiores pólos de soja do mundo. Ali estão instaladas 16 empresas que processam 150 mil toneladas de soja/dia, cada uma com seu porto de escoamento.
Janes Rocha