Rastreabilidade atua no teatro da guerra vermelha
O agrônomo Donário Lopes de Almeida, diretor comercial da Planejar Certificações, escreve sobre o novo Sisbov, Serviço de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos.
Temos acompanhado uma grande discussão a respeito de novas exigências e demandas por parte de nossos clientes internacionais sobre os processos de controle nos sistemas de produção pecuária do país. Neste sentido, há pouco mais de quatro anos, o governo brasileiro instituiu o Sisbov, que desde então vem sofrendo adaptações e mudanças, seja para atender novas exigências de mercado ou para adequar ao modelo de produção nacional. Recentemente o Mapa editou uma nova normativa que traz uma série de alterações no processo de rastreabilidade brasileiro.
O novo modelo deverá impactar em breve toda a cadeia da carne, mas traz uma série de avanços que garantem o atendimento a exigentes consumidores e, portanto, oportuniza a manutenção de mercados atuais e prepara o país para pleitear o acesso aos mais rentáveis destinos mundiais.
Nossa pecuária vem apresentando uma grande evolução nas últimas décadas, com aumento significativo das taxas de desmame e desfrute. Isso aconteceu a partir do uso de adequadas práticas de manejo nutricional e sanitário, e continuado melhoramento genético. Vale mencionar que estas mudanças aconteceram em um curto espaço de tempo, sendo talvez uma das mais rápidas mudanças de cenário em pecuária de corte jamais vistas. Paralelamente a tão comentada revolução verde da agricultura, vivemos uma verdadeira revolução vermelha, reforçando a tese de que seremos o grande provedor global de alimentos.
Apesar de termos uma condição privilegiada e apresentarmos uma extraordinária competitividade, é imperativo que estejamos preparados a apresentar garantias e atender aos padrões de qualidade de nossos potenciais consumidores, em um ambiente dinâmico e afetado por subsídios e barreiras comerciais. Vivemos em plena mudança de comportamento do consumidor, onde a consciência de seus direitos aumenta a cada dia, o que aliado a uma variedade de riscos detectados nos alimentos, fez aumentar esta preocupação e pressão sobre as autoridades pela implantação de novos conceitos de alimento seguro.
Novas legislações foram e ainda estão sendo implementadas, incluindo demandas de identificação, rastreabilidade e certificação nos produtos alimentícios. Esta é a tendência e, atualmente, a maioria dos países exportadores, nossos concorrentes, estão caminhando nesta direção.
No caso da carne, além do rigoroso controle sanitário dos rebanhos, vamos ver novas demandas em relação ao bem estar animal e dos trabalhadores envolvidos na produção e, importante, uma maior preocupação com o impacto da atividade produtiva no meio ambiente. Neste sentido, é aconselhável que nossa cadeia da carne – setor público e privado – entendam estas novas tendências e estejam preparados para oferecer as garantias exigidas por estes consumidores globais, com visão de futuro e responsabilidade de quem realmente tem condições e quer ser o celeiro do mundo.
Felizmente o Brasil foi pioneiro no desenvolvimento de um sistema de rastreabilidade bovina e, ao longo destes últimos anos, vem operacionalizando o que pode ser considerado o maior programa de rastreabilidade pecuária mundial. Apesar dos percalços, dificuldades e mesmo falta de credibilidade apregoada por muitos, a base de dados brasileira ultrapassou os 65 milhões de animais, com mais de 20 milhões de entradas nos úlimos 12 meses. É considerável!
Portanto, com a entrada das novas regras, agora consensuadas entre os diversos elos produtivos, temos a oportunidade de transformar o Sisbov em uma verdadeira ferramenta de garantia de controle, para embasar nossos pleitos de abertura de novos mercados e viabilizando a participação em programas de certificação privados. Um sistema oficial confiável oportuniza a participação em mercados de maior valor agregado, indo mais além na cadeia e participando em vendas nas grandes redes de varejo.
O novo conceito de estabelecimento rural aprovado para exportação e seus controles para manutenção deste status altera o relacionamento do Pecuarista com Mapa, certificadora e frigorífico. Estão mais claras as responsabilidades e penalizações para estes atores, o que aliado a uma programada agenda de auditorias a ser promovida por técnicos treinados devem coibir as operações fraudulentas. Ficará ainda mais fácil a demonstração do sistema de produção utilizado, baseado sobre a exigência de manutenção do livro de resgistros no estabelecimento.
O investimento na identificação individual, que passa a ser para todos animais na propriedade, agora obrigatória, pode ser utilizada para manejar melhor o rebanho. A responsabilidade técnica com uma única certificadora prestando o serviço contribui para a responsabilização do processo. Enfim, uma série de direcionamentos que levam no caminho da melhoria do sistema de produção e a facilidade de demonstração destes processos.
Na condição de maior exportador de carne mundial temos a responsabilidade de manter um agressivo programa de valorização de nossos produtos, antecipando demandas e preparando nosso setor produtivo para atender aos desejos de consumidores cada vez mais exigentes. Apesar de líderes em volume de exportação, ainda não alcançamos os melhores e mais lucrativos mercados e, para isso, temos de apressar o passo. O contínuo melhoramento dos rebanhos, controles sanitários robustos, processos produtivos amigos do meio ambiente e do bem estar animal; estas são as algumas das tendências que vamos enfrentar.
A cadeia da carne brasileira tem em suas mãos o caminho para expandirmos nossa participação no teatro de guerra do mercado internacional da carne. E é guerra mesmo, estão envolvidos interesse comerciais e políticos diversos, subsídios, associações de trabalhadores, com os mais variados argumentos contra nossa posição de liderança. Estejamos preparados.
O agrônomo Donário Lopes de Almeida é diretor comercial da Planejar Certificações
Donário Lopes de Almeida
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