Urucum teve áreas de plantio reduzidas (A Tarde)

23/10/2006

Urucum teve áreas de plantio reduzidas

 

O declínio da cafeicultura no Planalto de Conquista nos idos de 1980 abriu as portas para culturas alternativas e, neste rastro, vieram a macadâmia e o urucum.
Simpósios com especialistas de outros Estados, estudos patrocinados pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e linhas de financiamento do governo federal disponíveis para os pioneiros dessas culturas impulsionaram as atividades e fizeram surgir plantações em 250 hectares.
Os empregos floresciam tal qual os grãos que brotavam dos frutos saídos da terra fértil e, até o final da década de 1980, as duas culturas juntas respondiam pela renda direta e indireta de mais de 5 mil trabalhadores, segundo estudo da Uesb.
A falta de renovação nas linhas de financiamento e o conseqüente desinteresse do mercado eliminou a macadâmia. Embora na mesma situação, o urucum resistiu e o produto chegou a alcançar a marca de US$ 2 o quilo. Mas a oferta superou a procura e o preço sofreu redução drástica, caindo para US$ 0,70.
Mais tarde, com a chegada da nova moeda brasileira (real), ficou estabilizado em US$ 1.
Por esta época, a área plantada já estava reduzida a mais da metade e, aí, os produtores perceberam o erro fatal. “No começo, muita gente chegou a pensar em trocar o café pelo urucum”, recorda o agricultor Orlando Lúcio Figueiredo.
O produtor Gileno Alves, um dos pioneiros do urucum em Conquista, não pensou assim, mas, a exemplo da maioria, pretendia reduzir os prejuízos com o café sem abandonar a cultura tradicional.
Reservou 70 hectares para o plantio do urucum na região de Inhobim, a 60 km do município, mas esbarrou na falta de financiamento continuado e, por isso, desistiu.
A atual área de 100 hectares em toda a região nem de longe lembra a imensidão verde e vermelha dos anos 1980, mas, em compensação, os avanços tecnológicos premiam os remanescentes, como o produtor Francisco Jerônimo de Souza.
Também pioneiro, porém com menor potencial produtivo, Souza colhe lentamente os frutos do que plantou naquela mesma época.
Hoje, não fosse a colheita de urucum, o sustento de toda a família estaria comprometido, garante.
“Isso aqui é um banco de um pai de família”, compara.
Inicialmente, plantou 850 pés em uma área pequena e diz que não se arrependeu. “Deu para ganhar dinheiro e até hoje é assim”, garante o lavrador, que chega a vender o quilo do produto por até R$ 2,80. “Quando tem muito produto no mercado, cai pra R$ 1,80, mas mesmo assim está bom, vale a pena”. Ele tem 2.500 pés de urucum plantados em um hectare e colhe 3 mil quilos por safra.
PESQUISAS – O atual reitor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Abel Rebouças, considerado um dos maiores pesquisadores nacionais nessa área, garante que, quando o assunto é urucum, Vitória da Conquista é referência nacional.
Isso, por causa do banco de germoplasma instalado na universidade, com mais de 120 acessos (introduções) de urucum. Este é um dos maiores em sua especialidade no mundo, com cerca de mil espécies de plantas distintas.
Rebouças explica que há variações de planta para planta, umas com mais coloração, outras com menos. Depende da quantidade de bixina na semente, de 1% a 6%.
“A indústria compra semente com níveis acima de 2,5% e o banco de germoplasma da Uesb possui material com variações de menos 1% até mais de 6%”, detalha.
Pode-se até dizer que o ideal é plantar aquela que apresenta acima de 6%, mas Abel Rebouças garante que não é simples, pois é preciso que se associe o teor de corante da semente à produtividade. Para manter a distinção, desde que o estudo do urucum foi iniciado, em 1989, a Uesb já distribui sementes e promoveu debates sobre a importância do fruto.
“O produtor, então, pode negociar o preço de acordo com o teor de bixina; essa é uma das importâncias do banco de germoplasma da Uesb”, destaca o professor, ao falar do papel do banco.
A Bahia possui uma área estimada de 2 mil hectares, com maior concentração no sul e extremo sul, sudoeste e litoral norte. Os números positivos do urucum continuam a justificar a sua condição de melhor alternativa, pelo fato de empregar uma pessoa por hectare.
Mesmo assim, não existe possibilidade de a cultura substituir a cafeicultura, por esta ser a mola mestra da economia regional.
Nesta linha de pesquisa, a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), concluiu em junho do ano passado pesquisa para subsidiar os órgãos competentes na avaliação da toxicidade.
A pesquisadora Ana Rita Pedreira Lapa Bautista informou que em animais de laboratório ficou constatada a não-toxicidade da bixina após ingestão, mesmo em dosagem considerada alta, de 540 mg por quilo de peso por dia.
*O urucum é uma planta que atinge até 10 metros de altura, floresce e produz sementes em vagem espinhosa, em forma de concha, nos meses de janeiro, fevereiro, junho e agosto.
Sua semente é transformada em pó, bastante usado como corante, na culinária, para dar um toque alaranjado aos alimentos, e também na indústria de cosmético, imprimindo cores fortes em produtos de beleza.
As flores do urucum são belas e utilizadas em ornamentação.

JUSCELINO SOUZA