Cresce compra de farinha argentina (Valor Econômico)

25/10/2006

Cresce compra de farinha argentina


 

As importações brasileiras de farinha de trigo argentina dispararam desde que o governo do país vizinho reduziu a tarifa de exportação do produto de 20% para 10%, em outubro. De acordo com dados da Secex, até setembro o Brasil havia importado 2,11 mil toneladas de farinha. Neste mês, o volume saltou para 15,06 mil toneladas. O volume é incipiente, mas preocupa indústrias locais, que vêem à frente nova mudança na legislação argentina, que tornará o produto ainda mais barato que o brasileiro.

No último dia 20, a ministra da Economia da Argentina, Felisa Miceli, publicou a resolução 803, que isenta a produção destinada à exportação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) em até 1,5 milhão de toneladas de farinha (o equivalente a 2 milhões de toneladas do cereal). Conforme a Federação Argentina da Indústria Moageira (Fiam), os moinhos do país vizinho trabalham com capacidade ociosa e há espaço para elevar a produção dos atuais 3,9 milhões de toneladas para 6 milhões. A medida do governo - ainda sujeita à regulamentação - tem por objetivo incentivar a exportação da farinha em detrimento do cereal.

No Brasil, as indústrias defendem que o governo federal crie uma tarifa compensatória para a farinha de trigo argentina, tão logo a resolução seja regulamentada, diz Roland Guth, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Paraná. Ele observa que as indústrias brasileiras operam com 30% da capacidade ociosa, produzindo em média 7 milhões de toneladas de farinha por ano. "O volume importado é pequeno, mas é devastador, porque joga o preço para baixo", afirma Guth.

Conforme dados da Secex, a tonelada da farinha de trigo da Argentina chega ao Brasil FOB (free on board) a US$ 212 por tonelada. Somados os custos para chegar ao varejo em São Paulo, a tonelada sai a US$ 256, ou R$ 550, calcula Élcio Bento, analista da Safras&Mercado. A tonelada produzida no Brasil custa é vendida hoje entre R$ 750 e R$ 800. Com nova redução de impostos, a tonelada da farinha argentina pode chegar ao Brasil a US$ 125 por tonelada. "A medida desestimula não só a indústria local, mas também os produtores de trigo, que também não conseguem concorrer com os argentinos", observa Guth.

Lawrence Pih, presidente do Moinho Pacífico, de São Paulo, diz ter recebido ofertas de moinhos argentinos para comprar a farinha pronta e empacotar no Brasil. "É uma boa indicação de que eles querem o mercado brasileiro."

Cibelle Bouças